A morte de Boechat apequena, e muito, o jornalismo ético do País

A morte de Boechat apequena, e muito, o jornalismo ético do País

Conheci Ricardo Boechat como a maioria dos brasileiros – através dos seus escritos em jornal impresso e das suas opiniões abalizadas e imparciais sobre fatos polêmicos, emitidas no telejornalismo, especialmente na “Band”. Dele retenho a imagem de um profissional extremamente ético, cioso das suas responsabilidades, do seu dever social. Era um dos poucos jornalistas da grande mídia nacional com esse compromisso social, que é inerente ao ofício, mas que muitos desconhecem porque preferem ceder às tentações fáceis da convivência com o poder, pouco importando se estão ludibriando a opinião pública ou vendendo a própria consciência por algumas lentilhas.

A visão que tenho de Boechat, no acompanhamento da sua trajetória desde o jornal “O Globo”, quando assinava como “Swann” e atuava em parceria com o lendário Ibrahim Sued, na divulgação de inúmeros furos jornalísticos, é a do repórter dos fatos, que não se envolve com eles senão para desnudá-los em proveito da boa informação, aquela que não é manipulada, que não esconde segundas intenções muito menos interesses excusos. Boechat era de uma extração cada vez mais rara no jornalismo midiático atualmente em voga, exatamente pela postura ética, pelo questionamento crítico que imprimia à exegese de notícias desafiadoras da inteligência nacional. Os seus últimos comentários exprimiram à saciedade esse traço marcante da sua personalidade. Trataram, justamente, da impunidade, que ele identificou com olho de lince ou sensibilidade aguda nos crimes diários que são cometidos contra a indefesa população, tais como a tragédia de Brumadinho, em Minas Gerais, e, por último, o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo, matando jovens que sonhavam com medalhas de campeões do futebol.

Para muitos, Ibrahim Sued, colunista social, que realçava futilidades em “O Globo”, não era o professor que se recomendava no jornalismo. Mas Boechat conseguiu a façanha de conviver com Sued sem se contaminar pelos seus eventuais vícios ou por suas falhas de caráter. Manteve-se incólume, aprimorando a arte de informar corretamente e, de preferência, noticiar em primeira mão, graças ao acesso a fontes privilegiadas que construiu durante o mister profissional exercido. Ibrahim ainda está a pedir uma biografia isenta – não era, de todo, um profissional repulsivo, tal como ficou estigmatizado. Aliás, diga-se que o estigma imputado a Ibrahim foi um contraponto natural da personalidade de outro colunista influente na sociedade do Rio de Janeiro e, de resto do país, Zózimo Barrozo do Amaral, que pontificava no “Jornal do Brasil” e cuja coluna era uma espécie de mini-jornal dentro do JB da Condessa Pereira Carneiro. Na Paraíba, o grande herdeiro do estilo de Zózimo Barrozo foi o jornalista e escritor Abelardo Jurema Filho, que pontua no “Correio da Paraíba” e que sempre esteve na vanguarda dos acontecimentos.

Abstraindo estilos dos grandes expoentes do colunismo social, cumpre ressaltar que Boechat, nos últimos anos, com a sucessão de acontecimentos atípicos verificados na história do Brasil, vinha atuando criteriosamente como a consciência crítica de segmentos da Nação. Fazia-se porta-voz da indignação com fatos que enojam a todos e nunca deixou de deblaterar contra autoridades constituídas pilhadas na prática de abusos ou atos delituosos. Desse ponto de vista, suas incursões analíticas em cima dos fatos ou dos episódios negativos que têm se sucedido tinham o potencial de verdadeiros petardos, de libelos demolidores a vergastar a conivência com os maus costumes e a redução do espírito público que deve nutrir o comportamento dos chamados representantes do povo.

Boechat tornou-se admirado pela coragem em denunciar poderosos, por não se vincular a legendas partidárias nem concordar em descaracterizar a sua atividade nobre em nome de vantagens aparentes e enganosas. Sem ele, abre-se uma lacuna imensa na comunicação, numa hora em que o Brasil experimenta tempos sombrios, de muitas incertezas e muitos receios. O sentimento de orfandade é inevitável, levando em conta a delicadeza da missão desempenhada por Boechat e a abnegação com que ele se dedicava a esse ofício. Fica o exemplo para os que se dispõem a lutar contra os males que ainda estão enraizados nas entranhas da sociedade brasileira.

Nonato Guedes

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