Atuação política de comunidades de base da Igreja teve confronto na PB

Atuação política de comunidades de base da Igreja teve confronto na PB

O engajamento de comunidades eclesiais de base da Igreja Católica da Paraíba em ações políticas de conscientização dos pobres detonou uma polêmica acirrada entre o então arcebispo metropolitano dom José Maria Pires e o deputado federal Ernani Sátyro, do PDS, com repercussão em veículos da imprensa nacional como “O Estado de São Paulo” e “Tribuna da Imprensa”, do Rio de Janeiro. A controvérsia estourou no final de 1980 a partir de denúncias formuladas por Sátyro – homem de confiança do regime militar –de que os núcleos de base da Igreja haviam tomado o caminho da subversão. Dom José, alinhado com a corrente “progressista” do clero, reagiu negando envolvimento partidário dos agentes das comunidades mas admitindo atuação política “desde que fizeram uma opção pelos pobres”. De acordo com o bispo, as comunidades atuavam no sentido de exigir de quaisquer candidatos a cargos eletivos “que cuidem mais do povo e não de outros interesses, como têm feito até agora”. Ambos já faleceram.

– As comunidades não são marxistas nem agitadoras. Elas são simplesmente cristãs – verberou Dom José, exortando Sátyro a ir pessoalmente, à noite, a reuniões das comunidades em alguns bairros de João Pessoa para se inteirar melhor sobre o teor das discussões. O arcebispo queixava-seque os políticos e outros ocupantes de cargos públicos não agiam em benefício do povo nem abordavam os seus graves problemas. A polêmica foi um “aperitivo” da radicalização verificada nas eleições de 1982, sobretudo, ao governo do Estado, que foram disputadas por Antônio Mariz (PMDB), Derly Pereira (PT) e Wilson Braga (PDS), este vitorioso. A Arquidiocese da Paraíba chegou a promover uma discussão no Centremar, tendo jornalistas políticos como expositores, para repassar informações e análises sobre a conjuntura política-eleitoral a uma plateia de que faziam parte, ainda, dom Helder Camara, arcebispo de Olinda e Recife e dom Fragoso, da diocese de Crateús, no Ceará, além de Dom Marcelo Carvalheira, bispo-auxiliar da Arquidiocese paraibana e Dom Luiz Gonzaga Fernandes, bispo de Campina Grande. A Igreja emitiu comunicados aos fiéis, debatendo propostas mas não recomendando, explicitamente, apoios a candidatos. “Não temos envolvimento com partidos, disso o deputado Ernani Sátyro pode ficar tranquilo”, asseverou Dom José.

Ernani ainda acusou certos bispos de quererem implantar um Estado teocrático no país, o que levou Dom José a se indignar e desafiar: “Gostaria apenas que ele apontasse o nome de um só bispo que esteja interessado nessa proposta. O que noto é que essas denúncias são feitas vagamente, sem mencionar nomes”. Sátyro, que fora governador da Paraíba por via indireta, dizia que as divergências entre uma parte do clero e o governo constituíam um dos mais delicados problemas da conjuntura então vigente. Entendia, ainda, que a cúpula da CNBB dava apoio aos religiosos mais exaltados, embora essa não fosse a posição oficial da cúpula da Igreja brasileira, como se concluía de declarações dos bispos Dom Avelar Brandão, Dom Eugênio Salles e Dom Vicente Scherer. Sátyro identificava a existência de “uma ação estudada e obstinada de certos bispos contra o modelo político, econômico e social brasileiro” e acrescentava: “Essa parte do clero encontra-se numa posição de verdadeira cruzada e nada indica que venha a desistir de seus objetivos ou pelo menos enfraquecer a sua ação”.

– Por mais que respeitemos a Igreja ou mesmo parte do seu clero – advertia o deputado – não podemos aceitar a sua liderança nessas matérias, porque isso implicaria na confissão de incompetência e incapacidade por parte do governo. O ministro da Justiça, inclusive, tentou gestões junto a elementos autorizados da Igreja e a resposta que recebeu foi a de que não adiantava o entendimento cordial porque o que eles queriam era a mudança, a transformação radical. Essa situação tanto se torna mais grave quando alguns bispos chegaram ao despautério de considerar que nós, os que apoiamos o atual modelo brasileiro, nos achamos em estado de pecado. Ainda acredito na possibilidade de um entendimento, de uma pacificação. Nunca, porém, com a submissão do Estado à vontade da Igreja nem da Igreja à vontade do Estado”.

Nonato Guedes

 

 

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