Biu Ramos: um enredo que começou na Arca dos Sonhos

Biu Ramos: um enredo que começou na Arca dos Sonhos

Seria repetitivo falar do Severino Ramos jornalista polêmico, um dos mais polemistas da imprensa paraibana ao longo de meio século de pontificado fértil e didático. Dizer, também, que ele foi o melhor repórter da sua geração, sem demérito a expoentes ilustres da reportagem, é outra redundância. Cabe falar, então, sobre o Biu Ramos escritor – e, também, aí, ele foi brilhante. A partir do livro “Arca dos Sonhos – Mocidade e Outros Heróis”, que veio a lume em 1985, uma deliciosa crônica da vida intelectual e boêmia da cidade nos idos de 50/60. Ou, ainda no dizer de Antônio Barreto Neto, a quem sucedi como correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em João Pessoa, “um alegre e colorido mural da provinciana sociedade pessoense daquela época, seus ambientes típicos, seus hábitos peculiares, suas figuras marcantes e seus tipos populares”. Foi esta figura extraordinária que perdemos, no final de semana.

Biu Ramos ganhou notoriedade, como escritor, com os dois volumes de “Os Crimes que Abalaram a Paraíba”, contendo revelações corajosas sobre casos hediondos, envolvendo figuras das elites econômicas, da chamada Casa Grande ou da Usina. Inevitável que a narrativa primorosa de episódios marcantes da história da Paraíba alcançasse repercussão extraordinária, a ponto de atrair leitores junto a todas as classes, indistintamente. O livro sobre Tarcísio Burity, intitulado “Esplendor & Tragédia”, também é um marco da reportagem literária, refletida, antes, na biografia de outro homem público ilustre, João Agripino Filho, que Biu retratou de corpo inteiro em “O Mago de Catolé”. Numa conversa na casa do conselheiro Luiz Nunes (Severino Sertanejo), o papa do colunismo político brasileiro Carlos Castello Branco ponderou a Biu, numa tarde de sábado, ter achado inapropriado o título – “O Mago de Catolé” para a dimensão da personalidade de João Agripino. Fora daí, derramou-se em elogios à narrativa impecável do “Castellinho da Paraíba”, que era Biu Ramos, embora não assumisse o epíteto.

Mas, voltemos à “Arca dos Sonhos” e ao que diz Barreto Neto: “Narrador fluente, hábil desenhista de perfis, Severino Ramos evoca um universo mágico com a graça natural de um bom contador de casos que simpatiza e se diverte com seus personagens. Repórter arguto, sensível na captação do essencial, seus perfis não se esgotam no pitoresco. Se esse é o traço mais forte, nem por isso ele esquece os claro-escuros que produzem relevos reveladores da verdade humana de cada um, recortada com fidelidade e carinho”. Oswaldo Trigueiro do Vale, por sua vez, atentou para o fato de Severino Ramos, em “Arca dos Sonhos”, retratar heróis maravilhosos – “não os heróis consagrados, os personagens oficiais, os membros das elites dominantes, salvo algumas exceções. Seus heróis são, quase todos, figuras do povo, figuras reais, mas dos quais poucos comparecem às páginas da historiografia oficial”. Entre os ditos heróis está “Mocidade”, figura peculiar de tribuno, que ocasionalmente se fazia porta-voz da oposição e que, provocado por João Agripino por haver desancado sua administração no Ponto de Cem Réis, perante a massa disforme, reagiu filosoficamente: “João, governo é pra sofrer”. Somente a sensibilidade de Biu Ramos poderia resgatar, com fidelidade e profunda autenticidade, episódios assim, personagens que, mais do que os ditos consagrados a que aludiu Trigueiro, fazem a história, o dia a dia, de João Pessoa, da Paraíba, de qualquer parte do Brasil. Ave, Biu Ramos!

Nonato Guedes

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