Braga ameaçou “cruzada” para excluir Minas Gerais da Sudene

Braga ameaçou “cruzada” para excluir Minas Gerais da Sudene

Irritado com a afirmação do senador Tancredo Neves (PMDB) de que o PDS havia se tornado um partido nordestino por ter vencido as eleições de governadores em 1982 em todos os Estados da região, o então governador eleito da Paraíba, Wilson Braga, ameaçou, numa entrevista coletiva em João Pessoa, antes de tomar posse, empreender uma “cruzada” para retirar Minas Gerais do Conselho Deliberativo da Sudene. Ele chamou Minas de “gigolô da economia brasileira” e disse que o Estado natal de Tancredo tirava fatias dos dois lados, do Sul e do Nordeste, e não oferecia nenhuma contribuição ao processo de desenvolvimento nacional. A ameaça de Wilson não foi levada adiante, até porque não encontrou eco junto a outros governadores nordestinos, mas ganhou destaque na imprensa do eixo Rio-São Paulo.

Braga, que em 82 derrotou nas urnas Antônio Mariz por 151 mil votos de maioria, lembrava que o PDS, sucedâneo da Arena, vencera também no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e em outras regiões. A pretensão do ex-governador paraibano era mobilizar forças para alterar a legislação constitucional em vigor na época e que permitia a Minas integrar a Sudene por ter, em seu território, uma região alcançada pelo chamado Polígono das Secas. “Precisamos acabar com essa estória de nós, do Nordeste, que já temos poucos recursos, tirar o pouco que temos para desenvolver Minas. O mineiro deve se convencer que tem que viver com seus próprios meios e sua própria economia”, argumentou Wilson. Entre líderes do próprio PMDB, a declaração de Tancredo foi considerada “infeliz” e “preconceituosa” em relação ao Nordeste. O governador mineiro optou por não polemizar com Wilson Braga e por não alimentar, mais, a referência ao assunto.

Em 1985, na disputa indireta à Presidência da República através do Colégio Eleitoral, formado maciçamente por senadores, deputados e “delegados”, nos Estados, do partido remanescente do regime militar, Braga voltou a se confrontar com Tancredo, que enfrentou Paulo Maluf, derrotando-o com o reforço de dissidentes do PDS capitaneados por José Sarney, que foi vice do peemedebista e acabou assumindo com a morte dele. Por ironia do destino, Wilson enfrentou contestação dentro de casa ao voto em Maluf. Sua mulher, Lúcia Braga, que foi deputada federal constituinte e alinhava-se com setores de esquerda, discordou publicamente do apoio do marido a Maluf, sendo apoiada pela filha Patrícia, que faleceu muito jovem em virtude de um acidente automobilístico ocorrido em Alfenas, Minas Gerais, e que a deixou em estado de coma por poucos anos. A “briga” familiar teve repercussão, inclusive, no “Jornal Nacional”, da TV Globo, mas não separou o casal.

Wilson foi eleito governador depois de uma trajetória política vitoriosa pelo Legislativo, de deputado estadual a deputado federal. Na Câmara, chegou a integrar a Mesa, ocupando cargo estratégico. Tinha acesso fácil a gabinetes ministeriais e chegou a trazer o presidente da República, João Figueiredo, à Paraíba, para anunciar investimentos no Estado. Numa reunião com Braga e políticos fiéis ao regime no hotel Tambaú, em João Pessoa, Figueiredo, porém, foi dramático ao informar a escassez de recursos federais para socorrer os Estados. Chegou a dizer que, se fosse o caso, iria paralisar obras federais consideradas “faraônicas” em Estados do Sul e Centro-Sul, carreando os recursos para o Nordeste, que atravessa mais um duro período de estiagem. As promessas não evoluíram, até porque o regime militar estava nos estertores e a vitória de Tancredo simbolizou a última eleição indireta no país. Já em 1989, a moeda corrente voltara a ser a eleição direta, com a vitória de Fernando Collor de Mello, que derrotou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno e sofreu um processo de impeachment em 1992, acusado de conivência com o esquema de corrupção montado pelo seu ex-tesoureiro de campanha Paulo César Cavalcante Farias, o PC Farias.

Wilson Braga, que foi, também, prefeito de João Pessoa e que tentou, inutilmente, conquistar cadeira no Senado Federal, já deixou a vida pública. Seu último mandato foi o de deputado estadual – curiosamente o primeiro que exerceu na política, em 1954. Sua mulher, Lúcia Braga, que também foi deputada estadual e chegou a se candidatar ao governo em 1994, sendo derrotada por Antônio Mariz, que faleceu no exercício do cargo, também abandonou a política. Na campanha eleitoral do ano passado, o casal não foi a palanques nem ao Guia Eleitoral. Lúcia, que tinha simpatia por Leonel Brizola, migrou do PFL para o PDT, conseguindo arrastar o próprio marido para acompanhá-la nessa opção. Brizola veio a João Pessoa abonar a ficha de filiação de Wilson e foi provocado por jornalistas com a lembrança de que Braga fora o último “malufista” entre governadores eleitos. “Quem tem uma mulher como Lúcia não pode ser um mau sujeito”, desconversou Brizola ao ser questionado a respeito, numa entrevista no miniplenário da Assembleia Legislativa em meio à adesão de Braga ao PDT.

Nonato Guedes

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