Candidatura de Sheherazade a governo da Paraíba divide opiniões

Apresentadora de telejornal no SBT, em São Paulo, Rachel Sheherazade já foi escrevente de Justiça na Paraíba, designada em 1994 para a Vara da Infância e da Juventude, cujo titular era o juiz Leôncio Teixeira Câmara. Nessa condição participou da única greve em sua vida. A categoria em João Pessoa resolveu cruzar os braços para protestar por melhores salários – ela vestiu-se de preto e juntou-se aos colegas em frente ao fórum da Capital paraibana, mas durou pouco a paralisação. Dois dias depois, a greve dos serventuários foi declarada ilegal e todos tiveram que voltar ao expediente. Conta Rachel que foi ali que aprendeu uma triste realidade nacional: certas leis só existem no papel, pois, sem vontade política, jamais serão aplicadas na prática.

Rachel acabou migrando para o jornalismo. Formou-se em Comunicação Social e atuou nas TVs Cabo Branco e Tambaú. Projetou-se nessa última quando teve liberdade para comentar assuntos – e foi uma gravação com opinião sua sobre o carnaval fora de época de João Pessoa que despertou o interesse do empresário e comunicador Sílvio Santos, levando-o a determinar a contratação de Rachel para atuar na sede do SBT em São Paulo. Na bancada do SBT, Rachel manifestou-se sobre temas complexos, inclusive, a agressão de moradores de rua no Rio contra um suposto ladrão e negro, que foi amarrado a uma árvore. Sheherazade tomou partido pelos manifestantes – e a partir daí suas opiniões foram crescendo e gerando polêmica, a ponto da jornalista ser qualificada como “direitista”. Crítica feroz do PT e do ex-presidente Lula, ela está sendo cogitada para disputar o governo da Paraíba em 2018 pela sigla “Patriotas”, que está sob o controle de Jair Bolsonaro, deputado federal e postulante a presidente da República, conhecido pelo discurso agressivo e pelo isolamento político, embora esteja na vice-liderança de pesquisas de intenção de voto para a sucessão de Michel Temer.

A “hipótese Sheherazade” para disputar o governo da Paraíba dividiu opiniões entre os críticos e os admiradores da apresentadora do SBT. Mais do que isso, provocou estranheza de um modo geral, tendo em vista que na sua passagem pela Paraíba Sheherazade nunca estreitou laços com políticos e partidos e jamais confessou ambição para ingressar na atividade política. O seu lançamento, entretanto, de acordo com versões na mídia, faria parte de uma estratégia nacional do “Patriotas” para lançar nomes nos Estados que possam reforçar a virtual candidatura de Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Sheherazade se encaixaria, também, na complicada conjuntura que o Brasil enfrenta atualmente, com demonstrações explícitas de intolerância, de censura artística e religiosa, e confrontos quase diários entre figuras representativas da política, das artes e da intelectualidade a respeito dos mais variados temas.

Rachel Sheherazade, que emite opiniões em espaços próprios em redes sociais, até para driblar a patrulha do “patrão” Sílvio Santos, que não incentiva manifestações políticas por parte de profissionais contratados pelo SBT, atuou na rádio Jovem Pan, está no segundo casamento e lançou o livro “O Brasil Tem Cura”, sob o selo da “Mundo Cristão”, de Maurício Zágari. O respeitado historiador Marco Antonio Villa comenta que o livro “é uma reflexão criativa e pessoal sobre a conjuntura complexa que vive o nosso país”. Zágari, na apresentação de Rachel e do livro, conta que em 2011 o Brasil ficou “impressionado com a contundência, a perspicácia e o destemor de uma pouco conhecida apresentadora de telejornal da Paraíba que, da noite para o dia, ganhou notoriedade por uma opinião que emitiu na pequena bancada do Tambaú Notícias”. E acrescenta: “O editorial que aquela loira de voz firme e olhar seguro fez sobre o carnaval viralizou na Internet numa velocidade assombrosa e apostura não passou despercebida pelo empresário Sílvio Santos, dono do SBT, que logo a convidou para ancorar o principal noticiario da emissora”.

– Goste-se ou não dela, fato é que Rachel tornou-se uma formadora de opinião conhecida nacionalmente e conquistou a alcunha não oficial de porta-voz da insatisfação de multidões – exagera Maurício Zágari, reconhecendo que em função das posições emitidas, Rachel passou a ser alvo simultâneo de elogios rasgados e ataques furiosos, em pouco tempo adquirindo o status de pessoa polêmica. E arrematou Maurício Zágari: “Todo brasileiro quer um país melhor. Mas um país melhor é formado pela soma de brasileiros melhores. Se o Brasil tem cura, essa cura começa por nós, cada um fazendo sua parte”. Nos meios políticos paraibanos, a expectativa é de que haja definições avançadas esta semana sobre a viabilidade ou não da candidatura de Sheherazade.

Nonato Guedes

 

2 Comentários

  1. Jose fernandes bonavides disse:

    Do jeito que a coisa política está qualquer cara nova será para nós uma tentativa de mudar a bandidagem, ainda mais se essa cara nova tiver o perfil/coragem política para dar uma reviravolta como demonstra a Raquel Seherazade. Torçamos pra que a coisa dê certo e que ela se eleita não convide velhas raposas para formar seu secretariado senão será seu fim.

  2. GUSTAVO SOUSA disse:

    O novo nome do PEN é Patriota, no singular. Abraço.

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