Críticas ao politicamente correto podem, também, esconder um preconceito disfarçado

As redes sociais não servem apenas como uma espécie de “ringue”, onde as pessoas defendem suas convicções de forma radical. Tem servido, também, como estuário para essas mesmas fazerem a defesa ou protestarem contra o chamado “politicamente correto”. Se há excessos na defesa do politicamente correto, há também muito preconceito embutido em quem protesta contra essa forma de agir

Esse preconceito embutido pode ser observado ontem em dezenas de postagens sobre o Dia da Consciência Negra. Para quem luta contra o racismo, a data simboliza mais um dia de reivindicações em favor de um segmento tradicionalmente discriminado em todo o mundo, principalmente no Brasil, país que foi um dos últimos a abolir a escravidão. Para quem ignora essa luta, bastaria apenas ignorar também a data, mas não foi isso que aconteceu. O que se viu nas redes sociais foram pessoas usando o velho discurso de que não tem preconceito, ao mesmo tempo que alinhavavam postagens com questionamentos ao papel de zumbi (como referência da raça negra) ou chavões como “o mundo está chato”, “tenho amigos negros” e que “os negros são mais racistas”.

No sertão, costuma-se dizer que “desculpa de amarelo é comer barro”. A sabedoria sertaneja pode muito bem ser aplicada a tais chavões, alguns deles risíveis. Ora, como os negros são mais racistas, se não se tem conhecimento de que alguém foi alvo de preconceito apenas pelo fato de ser branco? O mundo está chato, sim, mas a culpa é dos negros? O fato de possivelmente termos amigos negros não deveria impedir que respeitemos uma data importante para determinada categoria. Quanto às críticas a Zumbi dos Palmares, com desabafos de que ele teria escravos negros, há controvérsias históricas sobre essa versão e vale sempre dar uma pesquisada em como realmente funcionava a vida em comunidade no Quilombo dos Palmares. Ademais, a decisão sobre os símbolos da comunidade negra cabe a quem de fato integra essa comunidade. Não a nós, brancos. Vejam que tem muitos brancos que idolatram brancos com Alexandre Frota e Jair Bolsonaro e nem por isso os negros utilizam tais exemplos como prova de que a raça branca não presta. Criticam o ser humano chamado Alexandre Frota, o ser humano chamado Jair Bolsonaro, não a cor de sua pele.

Existem excessos, sim, na defesa do politicamente correto. Como o de algumas escolas apresentarem histórias e músicas infantis modificadas para educar as crianças de uma forma politicamente correta. Aliás, onde o politicamente correto é mais incorreto está justamente na liberdade de criação artística, porque nesta seara estão confundindo “educação” com censura. Mas, neste caso, não vemos as mesmas pessoas que criticaram o Dia da Consciência Negra em protesto ao politicamente correto fazerem o mesmo.

Em tempo: o Wikipédia diz que o adjetivo politicamente correto é usado para descrever a evitação de linguagem ou ações que são vistas como excludentes, que marginalizam ou insultam grupos de pessoas que são vistos como desfavorecidos ou discriminados, especialmente grupos definidos por sexo ou raça.

Linaldo Guedes

 

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