Dilma enfrentou recorde de exonerações de ministros no governo

Dilma enfrentou recorde de exonerações de ministros no governo

Problemas com ministros, como o que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) enfrenta agora, tendo como alvo o titular da Justiça, Sérgio Moro, acusado de interferir em ações do Ministério Público na Operação Lava-Jato, são recorrentes em quaisquer gestões, das de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, às do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. A gestão de Dilma Rousseff, que sucedeu a Lula a partir de 2011, teve um recorde de exonerações de ocupantes de Pastas influentes no primeiro escalão do Palácio do Planalto, a partir da saída de Antonio Palocci da Chefia da Casa Civil, debaixo de acusações publicadas pela “Folha de São Paulo” sobre alegado súbito enriquecimento do então auxiliar da mandatária.

De nada adiantou a presidente Dilma vir a público para dizer que ele estava dando todas as explicações para os órgãos de controle. Os fatos eram muito graves, relembra o historiador Marco Antônio Villa, autor do livro “Década Perdida – Dez anos de PT no poder”. Depois de “sangrar” por alguns meses, Palocci foi obrigado a pedir demissão. Em carta que divulgou, disse, à certa altura: “O ministro considera que a robusta manifestação do Procurador-Geral da República confirma a legalidade e a retidão de suas atividades profissionais no período recente, bem como a inexistência de qualquer fundamento, ainda que mínimo, nas alegações apresentadas sobre sua conduta. Considera, entretanto, que a continuidade do embate político poderia prejudicar suas atribuições no governo. Diante disso, preferiu solicitar seu afastamento”. Palocci protagonizou caso singular na história do Brasil – foi poderoso ministro em dois governos (o outro, de Lula) e caiu duas vezes por denúncias de corrupção, tudo isso em apenas cinco anos.

Ainda na Era Dilma, denúncias levaram à queda de Alfredo Nascimento, titular dos Transportes, suspeito de envolvimento com casos de superfaturamento e propina em obras viárias. O foco das acusações eram os dois principais órgãos do ministério – o DNIT e a Valec, esta uma empresa pública voltada à construção de ferrovias. A gota d’agua para a queda do ministro, porém, foi a denúncia de que uma empresa de seu filho, que tinha negócios com a Pasta, obtivera, desde 2005, fabuloso crescimento no faturamento: 86.500%. Nascimento abandonou o governo, mas não a vida pública. Reassumiu mandato no Senado e a presidência do Partido da República-PR. Sua saída levou à derrubada em cadeia dos ocupantes de altos cargos do ministério: em dezessete dias, as denúncias de corrupção derrubaram duas dúzias de funcionários.

Um outro ministro foi defenestrado, desta vez não por corrupção: Nelson Jobim, da Defesa, caiu após uma entrevista em que chamou Ideli Salvatti de “fraquinha” e disse que “Gleisi Hoffmann nem conhece Brasília”. O ministro estava descontente com os cortes orçamentários na pasta, com a indefinição na compra dos caças e com o projeto de reequipar as três forças. A entrevista foi considerada mero pretexto para sair do governo. Já uma denúncia contra um outro ministro de Dilma – Wagner Rossi, da Agricultura, indicado por Michel Temer na cota do PMDB, custou-lhe a Pasta. Rossi abrigava um lobista atuante dentro do prédio do ministério com sala, secretária, telefone, enfim, toda a estrutura. E sequer era servidor público – sua função, porém, era cuidar das licitações que só em 2011 deveriam alcançar a módica quantia de R$ 1,5 bilhão. Rossi declarou desconhecer o fato. Logo após, porém, seria denunciada sua íntima ligação com uma empresa que vendia produtos para o ministério. Surgiram fotos dele viajando no avião da companhia. Rossi teve que pedir demissão – foi o quarto ministro demitido em apenas três meses por corrupção.

Lá na frente caiu o ministro do Turismo, Pedro Novais, do PMDB-MA, uma figura inexpressiva na Câmara e que já antes da posse fora denunciado pelo uso indevido das verbas de gabinete, com as quais bancou supostas reuniões de assessores no motel mais caro de São Luís. Sua governante era paga pelo governo e sua mulher usava um servidor da Câmara há mais de sete anos como motorista particular. Caiu, ainda, Orlando Silva, do PCdoB, titular dos Esportes, acusado de receber recursos desviados do programa Segundo Tempo. Foram denunciados ainda diversos convênios considerados suspeitos. Restou ao ministro demitir-se, mas não sem dizer-se, na saída, vítima de um linchamento político. Um sétimo ministro de Dilma exonerado em meio a denúncias foi Carlos Luppi, do Trabalho, filiado ao PDT. O ministério era acusado de contratar ONGs e exigir propina para resolver problemas criados artificialmente pela burocracia da pasta. Luppi também fora fotografado usando avião de uma ONG que tinha contratos milionários com o ministério. Também concedera registros a sindicatos fantasmas. Acabou obrigado a se demitir. Por incrível que pareça, contudo, saiu fingindo indignação. Disse, em nota oficial, que se demitira esperando que “o ódio das forças reacionárias e conservadoras deste país contra o trabalhismo não contagie outros setores do governo”.

Nonato Guedes

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