Dilma Rousseff, de ex-guerrilheira torturada a “Mulher Sapiens”

Dilma Rousseff, de ex-guerrilheira torturada a “Mulher Sapiens”

Dilma Vana Rousseff, a mineira descendente de pai búlgaro, que foi eleita primeira mulher presidente da República do Brasil e se tornou também a primeira mulher presidente a sofrer um “impeachment” que a afastou do cargo quando cumpria segundo mandato, foi uma ativista de esquerda, integrante de uma organização armada, que sofreu torturas na prisão durante o regime militar e atuou como pombo-correio num dos episódios mais rocambolescos da história política nacional – o roubo do cofre do líder populista e corrupto Adhemar de Barros, ex-governador de São Paulo. Dilma acabou virando personagem do folclore nacional, com um palavreado desconexo que deu origem a um neologismo, o “dilmês”, idioma da mulher sapiens, conforme o título do livro de Celso Arnaldo Araújo que vasculha as pérolas ditas por Rousseff desde que entrou na vida pública.

Encarada com desconfiança pelo PT ortodoxo, devido a ligações brizolistas no passado, e chamada de “poste” pelo ex-presidente Lula da Silva, que a elegeu em 2010 e contribuiu para a reeleição em 2014, Dilma foi também a “ bichinha palanqueira boa de comício” ou a “Mãe do PAC”, rótulo de que Lula lançou mão para popularizar sua imagem na política. Nas eleições do ano passado, Rousseff escolheu candidatar-se ao Senado por Minas Gerais pelo PT. Começou liderando todas as pesquisas de opinião pública, mas chegou ao final da batalha com a língua de fora e derrotada. O escritor Antônio Risério, que foi parceiro de Duda Mendonça e João Santana no marketing do PT, chegou a desabafar numa entrevista que Dilma cometera estelionato eleitoral em 2014 na reeleição e, com isso, cavou sua sepultura. “A indignação nacional veio com tudo quando a sociedade percebeu que a dupla Dilma-Temer tinha dito uma coisa na campanha e, depois de eleita, principiou a fazer o oposto do que propagandeou. Com isso, Dilma jogou no lixo os votos que recebeu. Foi uma espécie de auto impeachment e tudo decorreu do desejo insano de se perpetuar no poder, com tudo que isso implica, financeiramente inclusive”, esbravejou Risério, antropólogo que trabalhou como redator das campanhas presidenciais do PT de 2002 a 2010 e escreveu o discurso de posse de Gilberto Gil no Ministério da Cultura em 2003, célebre pela pregação a favor de um “do-in antropológico” como a melhor política cultural para o país.

No livro sobre o “dilmês”, Celso Arnaldo detona o estilo presidencial. “Com sentenças que levadas ao pé da letra, sem uma rigorosa revisão, seriam barradas da ata de reunião de condomínio de um conjunto habitacional do Minha Casa, Minha Vida, Dilma foi impondo o dilmês ao mundo civilizado. Será que o português de Dilma entra na categoria do enriquecimento de nossa língua? Não, a Mulher sapiens e “o elogio da mandioca, uma das grandes conquistas da humanidade” não são provas da extraordinária criatividade dos brasileiros”, escreve Deonísio da Silva numa apresentação do livro. Para Deonísio, o livro mostra que o povo não merecia uma presidente que fala como Dilma. “Ela não é desconexa apenas no modo de governar. Também no quesito da fala são notórias suas agressões à lógica e à sintaxe. E como lhe fazem falta a cordialidade eo jogo de cintura!”, acrescenta. Celso Araújo foi direto: “O que choca em Dilma não é a oratória em si. O problema dela sempre pareceu mais complexo. A forma primitiva da fala, da saudação à despedida, já traía na candidata o primarismo do pensamento e um despreparo generalizado. Ela não apenas falava mal – mas dava a nítida impressão de não saber do que falava, sobre, virtualmente,qualquer assunto”, frisa.

E arrematou Celso Araújo: “Para quem se dispusesse a ouvi-la com um mínimo de atenção, a fala de Dilma, desde os primórdios de sua ascensão ao proscênio da política nacional, sempre foi um triste espetáculo de pensamentos rudimentares, expressos por uma sintaxe que desafiaria estudiosos da neurolinguística em aborígenes australianos. Na própria presidente, quando instada a se manifestar, é nítido o sofrimento pela necessidade de articular ideias em público. Ouça um discurso em que Dilma improvise. Gestos que normalmente acompanham o resgate de palavras em nosso arcabouço léxico, se e desenham no ar quase sempre silenciosos, desacompanhados da respectiva expressão verbal, soltos no vazio do pensamento. Sempre foi patente o esforço de Dilma, nunca bem-sucedido, de desenvolver uma ideia – os esgares produzidos por essa tentativa frustrada traem sua dificuldade de instrumentalizar o raciocínio com palavras”, cravou Araújo.

Nonato Guedes

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