Dom José articulou a Teologia da Enxada na Arquidiocese da PB

Uma atitude marcante levada adiante por dom José Maria Pires, quando Arcebispo Metropolitano da Paraíba, foi a organização de um Centro de Formação de Missionários Camponeses da América Latina, experiência que ficou conhecida como “Teologia da Enxada”. Informa o professor Sampaio Geraldo Lopes Ribeiro que, embora não constituísse uma nova teologia ou, pelo menos, tivesse uma reflexão nesse sentido, o Centro nasceu de uma proposta revolucionária na formação de religiosos. A ideia partiu dos próprios seminaristas/missionários, foi sistematizada pelo padre e teólogo belga José Comblin e encaminhada institucionalmente por dom José, que faleceu ontem à noite e está sendo velado hoje em Belo Horizonte, devendo seu corpo chegar pela madrugada de amanhã a João Pessoa.

Os seminaristas que fizeram a proposta escolheram a área rural como o lugar para viver e estudar. Nos fundamentos dessa experiência, os futuros religiosos deveriam viver junto com os camponeses e trabalhar como eles para garantir a sua sobrevivência. Além disso, deveriam estudar a teologia católica para depois de seis anos se formarem padres. Não havia professores e os estudos eram feitos em grupos e orientados por um instrutor, José Comblin, que de três em três semanas visitava os seminaristas para evitar os estudos e fazer uma nova programação. Com a expulsão de Comblin do Brasil pelos militares – ressalta Sampaio – a Teologia da Enxada ficou abalada e não formou outros grupos. Mas a experiência acabou sendo reiniciada na década de 80 com o retorno e a anistia de Comblin. A proposta original era de que a Teologia da Enxada formasse padres, mas conforme depoimento de dom José, o Vaticano, ao ser informado sobre o seminário rural, apôs veto expresso e determinou que o seminário fosse resolvido.

– Depois de elegerem o status de missionário e resolvido o impasse criado pelas imposições do Vaticano, a experiência de formar religiosos diretamente no campo foi levada adiante – observa Sampaio, aludindo, ainda, à experiência da Igreja Viva, transformada em CEBS, Comissões Eclesiais de Base, também por iniciativa de Dom José. A Arquidiocese formou o Grupo de Promoção Humana que tinha como objetivo atuar diretamente junto aos camponeses que havitavam terras da Igreja. Conforme Sampaio, o Grupo de Promoção Humana não era estritamente um serviço de clérigos. Aglutinava leigos que iam a campo a fim de conscientizar e organizar os camponeses. Esse núcleo era composto, além dos religiosos, por assistentes sociais, agrônomos, técnicos agrícolas, psicólogos, uma médica e uma auxiliar de enfermagem.

Nonato Guedes

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