Eleição simultânea de Galdino sinalizou para valorização do Legislativo

Eleição simultânea de Galdino sinalizou para valorização do Legislativo

Se preferirem, não foi uma derrota do governo, mas uma vitória do Poder Legislativo. É mais ou menos como está sendo traduzida a eleição do deputado Adriano Galdino para dois biênios consecutivos, quatro anos de mandato, numa reviravolta histórica na Assembleia Legislativa da Paraíba. O governador João Azevedo (PSB) confirmou que havia um acordo para o segundo biênio, prevendo a eleição de Hervázio Bezerra, mas esse acordo foi quebrado. O ex-governador Ricardo Coutinho, que participou de articulações de bastidores, não opinou sobre o resultado, mas deputados que lhe são fiéis não esconderam o desapontamento com o desfecho das sessões de ontem.

O recado de 23 deputados que elegeram Adriano para o segundo biênio (para o primeiro biênio houve unanimidade, ou seja, 36 votos), foi curto e grosso: Executivo não deve interferir no Legislativo, da mesma forma como Legislativo não interfere no Executivo; pelo contrário, tradicionalmente é um poder cooperador partindo do princípio de que as matérias de Palácio são do interesse público, com o qual todos estão comprometidos em tese. O histórico de eleições na Assembleia mostra reviravoltas espetaculares, como se deu com a vitória de Fernando Milanez, em 81, derrotando Assis Camelo, o candidato do governador Tarcísio Burity. Ou, mais tarde, com a vitória de João Fernandes da Silva, derrotando um outro candidato de Burity – Severino Ramalho Leite.

O mentor da reviravolta de ontem atende pelo nome de Tião Gomes, deputado que se diz fiel ao governo, quer ao de Ricardo Coutinho, quer ao de João Azevedo, porém, não correspondido na sua pretensão de chegar à presidência da Assembleia, a despeito de possuir inúmeros mandatos. Ao perceber que mais uma vez havia sido montado um jogo de cartas marcadas para privilegiar, na eleição ao segundo biênio, o deputado Hervázio Bezerra, que foi líder durante os dois mandatos do governo de Ricardo Coutinho, Tião Gomes chutou o pau da barraca. Insinuou sua própria candidatura, mas, de forma bastante hábil, surpreendeu a todos, retirando o seu nome e recolocando o de Adriano Galdino para o segundo biênio. A derrota de Hervázio estava escrita e ele não sabia.

O governador João Azevedo, que está de plantão no Palácio, coroado pela vitória em primeiro turno nas eleições do ano passado, não teve outra reação senão lamentar que o acordo dentro da sua base tivesse sido quebrado, mas, também operando com habilidade, demonstrou espírito democrático, de absorção do resultado. Não poderia ser outra a sua postura. O presidente Adriano Galdino havia sido enfático nas palavras que proferiu ao sabor das grandes vitórias que conquistou: “Nossa intenção é continuar governo, para que possamos dar governabilidade a João Azevedo. Me encontrei com Hervázio e João, mas fiquei muito sensibilizado com a fala de Tião. Ele fez o apelo, fez um desafio, e eu sou homem de desafio e resolvi acompanhar”. Mais esclarecedor, impossível.

Fica difícil para o esquema situacionista tratar Adriano Galdino como hostil, inimigo ou traidor. Ele já havia ocupado a presidência, antecedendo a Gervásio Maia, que concluiu agora seu mandato e está em Brasília como deputado federal. A dupla vitória de Adriano precisa ser interpretada, também, como reflexo da postura que ele mantém, como um parlamentar que sabe se relacionar com todos, indistintamente, e que foi uma grata revelação como dirigente do Poder Legislativo. O deputado Hervázio Bezerra, lançando mão do “jus esperneandi” a que tinha direito, deblaterou contra os que chamou de “traíras” da Assembleia Legislativa. A afirmação deve ser entendida no contexto do desabafo e do desapontamento com o que aconteceu, porque, fora daí, o que se verificou foi um exemplo de autonomia e de independência da maioria dos deputados, como nunca havia se verificado na Assembleia. As conquistas de Adriano foram no voto e com méritos. Ele está amplamente credenciado e legitimado para administrar a Assembleia. Não será um adversário da gestão de João Azevedo – pelo contrário, deseja cooperar. O que fica como lição é a necessidade de valorizar-se, de fato, o Legislativo, e acabar-se a história de interferência do Executivo em questões internas de outro Poder. Simples, assim.

Nonato Guedes

 

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