Epitácio derrotou Rui Barbosa e nomeou civis para pastas militares

Entre 1919 e 1922, o Brasil foi governado por um paraibano ilustre – Epitácio Pessoa, que era influente chefe político no Estado e foi ministro da Justiça de Campos Sales e líder da delegação brasileira à Conferência da Paz em Versalhes. Mesmo ausente do Brasil, foi o candidato de Minas Gerais e São Paulo, com o apoio do Rio Grande do Sul, à sucessão de Rodrigues Alves. Concorreu com Rui Barbosa, destacado jurista, político e intelectual baiano, que, no entanto, era mal sucedido na política, perdendo por mais de uma vez a eleição para presidente. Rui não sobreviveu por muito tempo à última derrota. Morreu em 1923, recebendo por parte do povo e das autoridades homenagens dignas do presidente que não chegou a ser. Tais homenagens póstumas motivaram a curiosa comparação de Medeiros e Albuquerque: “Ele foi a nossa Inês de Castro. Esta, só depois de morta, foi rainha, como diz o verso de Camões. Rui só depois de morto chegou a chefe de Estado graças ao decreto que para o seu enterro lhe deu essas honras”.

No livro “Histórias de Presidentes – A República no Catete”, a historiadora cearense Isabel Lustosa lembra que Epitácio, o “Tio Pita”, foi inovador, em consonância com o início da modernidade política e social brasileira, que teve como um dos marcos a Semana de Arte Moderna em São Paulo. Foi assim que Epitácio Pessoa chamou a atenção ao nomear ministros civis para pastas ministeriais militares. Para o ministério da Guerra foi nomeado Pandiá Calógeras e, para o da Marinha, Raul Soares. A medida desagradou a oficialidade, que passou, então, a fazer acirrada oposição ao governo. A chamada força nova e anti-oligárquica deflagrou uma série de rebeliões militares, a partir do episódio dos 18 do Forte de Copacabana. No Nordeste, a seca castigava a região onde nascera o presidente da República e, em paralelo, eclodiu o cangaço, cuja expressão maior foi Virgulino Ferreira, o Lampião, protegido pelo padre Cícero Romão Batista, que se fixara em Juazeiro do Norte, no Ceará, atraindo caravanas de romeiros de todas as partes da região.

Epitácio lançou um programa de obras contra as secas, as chamadas frentes de trabalho. Fora daí, cumpria intensa agenda social, com grandes recepções noturnas, quebrando a tradição de só usar-se o Palácio do Itamarati para tais acontecimentos. A visita dos reis da Bélgica – Alberto e Elizabeth, em 1920, deu margem ao maior número de festividades. Para os reis promoveu-se um banquete de gala, seguido de recepção. Em 1921 começou-se a discutir a sucessão. Artur Bernardes parecia ser o nome que contava com o maior apoio em todos os Estados. No entanto, o ex-presidente e líder do Partido Republicano Fluminense Nilo Peçanha lançou-se candidato e fundou a Reação Republicana. Com esta bandeira, Peçanha percorreu o país em campanha. Nesse ínterim estourou o caso das cartas falsas. Surgiam nos jornais cartas assinadas por Artur Bernardes, criticando de forma desrespeitosa o Exército e o marechal Hermes da Fonseca. Foi o bastante para que grandes setores das Forças Armadas, independente de comprovação ou não da veracidade das tais cartas, rompessem com a candidatura de Bernardes. Não obstante, Bernardes governou o país de 1922 a 1926. Tinha o apelido de “Seu Mé”, como narra Isabel Lustosa.

Nonato Guedes

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