Esfacelado, PT celebra 39 anos investindo na campanha “Lula Livre”

Esfacelado, PT celebra 39 anos investindo na campanha “Lula Livre”

O Partido dos Trabalhadores chega aos 39 anos de fundação neste domingo (10) esfacelado do ponto de vista político e eleitoral e elegendo como prioridade não a reestruturação da legenda, cuja lua de mel com o poder minguou, mas a deflagração de uma campanha para sensibilizar segmentos da sociedade a encamparem a cruzada “Lula Livre”. O PT chegou à conclusão de que fenecerá inexoravelmente enquanto seu maior e principal líder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, for mantido atrás das grades, impedido de ser visto pela opinião pública até em cerimônia fúnebre, como se deu recentemente por ocasião da morte do irmão, conhecido como “Vavá”. A situação de Lula ficou gravemente complicada com uma nova condenação imposta pela Justiça, no exame do caso do sítio de Atibaia, imóvel do qual ele negou ser proprietário, atribuindo a posse a empreiteiras como Odebrecht e OAS e que já foi confiscado para efeito de leilão.

A última campanha eleitoral de que o PT participou, a de 2018, demonstrou o esfacelamento da agremiação que nasceu numa assembleia no Colégio Sion, em São Paulo, em fevereiro de 1980, congregando sindicalistas como Lula, que se credenciara por ter liderado greves operárias históricas na região do ABC metalúrgico, e intelectuais, bem como militantes remanescentes da Igreja Católica, então empenhados no combate à repressão da ditadura militar que ainda exibia seus esbirros. O candidato a presidente da República que substituiu Lula em 2018, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, ainda logrou votação expressiva, em torno de 45 milhões de sufrágios, num segundo turno em que a outra candidatura, simbolizada pelo capitão Jair Bolsonaro, traduzia projeto político de correntes conservadoras, até mesmo reacionárias, do estrato social brasileiro. Mas justamente pelo caráter ameaçador imputado à candidatura de Bolsonaro, no sentido de que a sua vitória simbolizaria retrocessos nos avanços conquistados e, em paralelo, pelo receio da “militarização” do governo, havia no ar alguma expectativa de uma contra-ofensiva maciça dos segmentos formadores de opinião pública, em condições de influenciar para a derrota do projeto que era uma incógnita.

Tal não se deu – e isto se verificou por diferentes razões. Uma delas, seguramente, foi o fato de que Haddad não tinha carisma na dosagem certa para empolgar segmentos com visão crítica do processo histórico que estava sendo travado naquela disputa. Em paralelo, o PT pagou caro pelo desgaste que vinha acumulando ao longo dos anos, derivado de escândalos envolvendo cabeças coroadas como ex-dirigentes, ex-ministros e ex-tarefeiros da legenda, chegando, como chegou, no ex-presidente Lula, a figura mitológica, que até então vinha se poupando do bombardeio com a alegação de nada saber a respeito de desvios de conduta de filiados do partido. O PT teve uma oportunidade rara, histórica, de fazer um amplo expurgo, misturado com uma autocrítica sincera das falhas cometidas no campo que lhe era mais caro em termos de identidade – o da ética. Mas jogou fora essa chance, confiante em que a opinião pública não seria severa no próprio julgamento, independente do julgamento de ministros de tribunais superiores. Os escândalos do mensalão e do petrolão constituíram o “ponto fora da curva” que levou o PT à destruição da sua reputação moral. Junto com o desgaste ético-moral, veio a falta de credibilidade, diante de evasivas apresentadas pelos petistas acusados em suas defesas e até mesmo de provas cabais, estarrecedoras, desfiadas perante o grande público.

Lula teve habilidade de sobra e até mesmo maturidade, aprendida na lida diária, para construir as páginas da história do Partido dos Trabalhadores que o alçaram ao poder, inicialmente em prefeituras de capitais e cidades médias, posteriormente em governos estaduais, passando por assembleias legislativas, Câmara Federal e Senado até desembocar na presidência da República, onde Lula pontificou triunfalmente, por duas vezes, em 2003 e 2007, saindo de embates acirrados com protagonistas de peso identificados com esquemas políticos tradicionais que predominaram por bom tempo no cenário nacional. Supunha-se que esta seria a parte mais difícil – chegar ao poder. E o ciclo passou, ainda, pela eleição de uma candidata inteiramente desconhecida da maioria do eleitorado, Dilma Rousseff, que foi ungida como sucessora de Lula e entrou na História como a primeira mulher presidente da República. Infelizmente, tornou-se, também, a primeira mulher presidente a sofrer um processo de impeachment, a que o PT tentou dar conotação de golpe, que, no entanto, não teve receptividade junto à maior parte da sociedade. O tiro de misericórdia do desmonte do PT veio com a prisão de Lula, que está prestes a completar um ano, com a condenação renovada agora na Justiça. O futuro do PT é a grande incógnita. Com Lula preso, não há estímulo, sequer, para a formação de novos quadros que segurem o bastão. Talvez seja por isso que a prioridade não é nem pensar em reconquistar o poder, mas em soltar Lula, para que o partido tente reencontrar o caminho da refundação no país – se é que ainda há espaço para tanto.

Nonato Guedes

 

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