Homenagem a Ariano Suassuna é uma exaltação à resistência

Homenagem a Ariano Suassuna é uma exaltação à resistência

A Universidade Federal da Paraíba faz, hoje, uma homenagem pelos 92 anos de nascimento do escritor Ariano Suassuna, com palestras, filmagens, música, poesia e exposição tendo como tema “Políticas públicas de cultura e educação”. A celebração é, na verdade, uma exaltação à resistência, de que Ariano se fez símbolo ao longo de uma trajetória fascinante, abreviada com sua morte, há poucos anos. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1989, Ariano Villar Suassuna nasceu na Capital paraibana em 16 de junho de 1927 e foi ao assistir pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola que moldou seu itinerário intelectual, cujo caráter de improvisação constituiria, igualmente, uma das marcas registradas, também, da produção teatral que desenvolveu.

Foram inúmeros os marcos deixados por Ariano Suassuna e que tornaram-se permanentes, incorporados à cultura e a história, sobretudo do Nordeste, onde ele deitou raízes, com intensa militância baseada no Recife. Sempre vinculado às iniciativas culturais de origem popular, Ariano Suassuna iniciou em 1970 na capital de Pernambuco o Movimento Armorial, interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Entre 1958 e 1979, dedica-se também à prosa de ficção, publicando o romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, além de História d’O Rei Degolado nas Caatingas do Sertão, Ao Sol da Onça Caetano. Classificava cada obra dessas como “romance armorial-popular brasileiro”.

No livro “Com a Palavra”, editado pelo Sesc São Paulo, Ariano Suassuna dá vazão ao seu pensamento autêntico, cristalino, próprio de quem nunca se submeteu aos padrões convencionais – pelo contrário, subverteu-os, em inúmeros episódios que entraram para a antologia ou até para o anedotário, ele que era exímio contador de causos, que tinha o dom de hipnotizar plateias com seu verbo fácil e acolhedor. Como definiu José Nêumanne Pinto, paraibano de Uiraúna, na antologia reunida pelo Sesc-SP, todos os autores e autoras do livro “Com a Palavra” a procurou em algum lugar incerto e encontrou em fortuitas e diversas circunstâncias. “Todos eles e todas elas, inclusive este introdutor que lhes escreve, saíram da experiência desse convívio como quem foi buscar lã e acabou tosquiado. O verbo é um cordeiro, ao mesmo tempo profano e sagrado, que nunca terá piedade de nós, seus enamorados eunucos”.

O capítulo que versa sobre Ariano Suassuna é apropriadamente intitulado “Um Brasil que resiste”. Não deixam de ser irresistíveis as reflexões que Ariano se permite fazer sobre temas variados do caleidoscópio nacional. Como esta pérola lapidada: “No Recife, dizem que sou radical, e parece que sou mesmo. Mas veja bem, sou radical porque as coisas estão se desmanchando. Radicalizam muito para o lado de cá, então eu radicalizo para o lado de lá, para ver se chegamos pelo menos a um meio-termo razoável, não está certo?”. Certíssimo, Ariano!!! A sua radicalização, nessa queda-de-braço, era um mecanismo legítimo de auto-defesa diante de inovações que Ariano não necessariamente renegava mas sobre as quais conservava uma visão crítica lúcida e impecável. Preocupava-se, por exemplo, com o fato de estarem colocando o homem a serviço da técnica, quando entendia que era para ser o contrário. “A tecnologia é muito boa, desde que posta a serviço do homem. Reajo contra isso e reajo de maneira dura”, destacou ele nas suas ilações-provocações.

– Desde os doze anos tento ser escritor. Meus irmãos mais velhos brincavam muito comigo. Diziam que quando eu não sabia o que fazer com um personagem, eu o matava. Eu era um assassino horroroso. E o pior é que fiquei adulto e continuei. Na minha peça mais conhecida e considerada a mais engraçada (O Auto da Compadecida), morre todo mundo. Só quem escapa é Xicó. Esse eu não tive coragem de matar porque tenho uma simpatia danada por mentirosos. Há duas raças de gente com as quais simpatizo: mentiroso e doido, porque eles são primos legítimos dos escritores. O que é um mentiroso? É um camarada que não se conforma com o universo comum e inventa outro. Ora, isso é um escritor. Eu também sou assim. Na minha vida, não acontece nada, se eu não mentir o que é que eu vou contar?”. Mais Ariano Suassuna, impossível. Que concluía, com sabedoria: “Acho que o dever de todos nós, escritores brasileiros, é colocar, mesmo que a realidade seja dura e cruenta, um sonho mais belo e alto que possa mover o povo, porque se perdermos até a esperança não haverá mais caminho para nós”.

Nonato Guedes

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