Lição de FHC: “para ser um líder popular, não é preciso ser mentiroso”

Lição de FHC: “para ser um líder popular, não é preciso ser mentiroso”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em “Cartas a um jovem político”, oferece lições por demais oportunas sobre o exercício da política e do poder, com base nas experiências recolhidas desde que deixou a cátedra de lado para mergulhar na atividade política. Diz FHC: “Para ganhar uma eleição é preciso ter voto, e voto resulta de popularidade. Então, quando está em campanha, o político em geral tem que seduzir, tem que agradar. Alguns agradam até pela dureza, e agradam até mesmo a imprensa pela dureza. Jânio Quadros, por exemplo, maltratava a imprensa e sempre foi muito popular junto a ela. Seduzir o eleitorado não é apenas dizer sim. Você tem que cair nas graças do povo de uma maneira ou de outra, seja pelo modo de falar as coisas, seja pelo conteúdo, seja pelas duas coisas. É uma arte pessoal; você tem que cativar”.

E mais: “Você que está começando na política não deve imaginar que para ser popular terá que ser mentiroso, uma das atitudes mais comuns em nossas práticas eleitorais. Tem é que ser autêntico, sincero, mesmo que nem sempre dê certo. Muita gente monta uma estratégia de mentira, de comércio, até de compra de votos, e dá certo. Os marqueteiros geralmente estão aí para acentuar o que a pessoa tem de bom e disfarçar o que ela tem de mau. Mas o fato de você se arriscar a perder com a atitude honesta não quer dizer que seja recomendável ganhar com a atitude malandra. Nem um pouco: política desse jeito pode até servir a um interesse pessoal, mas não vale a pena”. A série “Cartas a um jovem” apresenta uma visão crítica e profunda de uma área de atuação, com base na rica vivência de autores”, esclarecem os editores.

Fernando Henrique Cardoso concorda com a máxima de que governar é contrariar interesses, atribuída a inúmeros políticos, inclusive, paraibanos. Diz ele que, no exercício da presidência da República (governou por duas vezes), perdeu a popularidade várias vezes, mas não abriu mão de tomar decisões que deveriam ser tomadas. A crise cambial de 1999, por exemplo, derrubou a minha popularidade – não derrotou na hora porque o povo dificilmente sabe na hora, leva um tempo, mas depois vêm as consequências. Tudo bem: dá para reconstruir a popularidade se você não tiver perdido o respeito. Quando não existe o respeito, não existe solução, não se conserta mais. Vira palhaçada”, adverte o sociólogo. O resumo da ópera, nesse capítulo, é o seguinte: “para governar é fundamental ter rumo, direção, competência – e ser respeitado”.

Na opinião de Efe Agá Cê, um exemplo ilustrativo de situações em que a popularidade está em jogo é o líder Churchill, “Ele ganhou a guerra e perdeu a eleição. Perdeu a eleição porque perdeu popularidade, mas não perdeu o respeito. Depois ele até volta ao governo. Teria sido um líder de qualquer maneira, mesmo se não tivesse voltado a ser primeiro-ministro”. Fernando Henrique alerta os jovens para tomarem consciência de que política, também, é muito cruel. Às vezes um pequeno erro ou acerto levam a popularidade de governantes lá para cima ou para baixo. E ele conta um exemplo. No auge do Plano Cruzado, foi a Aparecida do Norte (SP) com o presidente José Sarney. Foram de helicóptero e lá pegaram um ônibus para se dirigir até a Basílica. O presidente Sarney estava no topo da popularidade. As ruas estavam cheias, todo mundo aplaudia. Aí, a esposa de Sarney, dona Marli, disse: “Ih, Zé! Cuidado, hein? Daqui a pouco você pode não ter nada disso”. E foi o que aconteceu. No Plano Cruzado II, de Sarney, tudo foi para o espaço. “É assim mesmo. Política é uma atividade de risco. Mas o presidente não perdeu as condições para governar”, assinala Fernando Henrique.

– Na verdade – finaliza FHC – desabar nas pesquisas num determinado momento não é grave se for capaz de recuperar a popularidade. Mas você só se recupera se fizer alguma coisa. Tem que ganhar o apoio popular de novo e é assim que as coisas se passam permanentemente. Você está entre a planície e o planalto, o tempo todo. Por isso, você acaba não governando se ficar fixado na popularidade. Se for governar olhando as pesquisas de opinião pública, vendo a cada hora quem é a favor e quem é contra, você não governa. É preciso fazer o que deve ser feito e às vezes o que deve ser feito não é popular”. Será que a nova geração de políticos “decora” e segue esses ensinamentos? A conferir!

Nonato Guedes

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