Lula, o metalúrgico, desdenhava de partidos políticos. Até fundar o PT

Lula, o metalúrgico, desdenhava de partidos políticos. Até fundar o PT

Ricardo Stuckert

O Partido dos Trabalhadores, que completa 39 anos de fundação neste domingo, 10 de fevereiro, nasceu sob a liderança de um metalúrgico – Luiz Inácio Lula da Silva, que em 1978 comandara greve histórica em São Bernardo do Campo, São Paulo, chegando a ser preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional, mas que desdenhava dos partidos políticos e até mesmo das ideologias em voga. Lula, um retirante pernambucano de 32 anos que chegara em São Paulo em 52 com a mãe, abandonada no sertão quando estava grávida dele, e encontrara o pai, alcoólatra, com uma nova família, começou como diretor de Previdência Social do Sindicato de São Bernardo. Sua experiência de trabalhador com carteira assinada durara treze anos e ele passou de “Baiano” e “Taturana” a Lula, como relata o jornalista Elio Gaspari no livro “A ditadura Acabada”, o quinto de uma reconstituição histórica sobre o regime militar instaurado em 1964.

Em 1975, numa cerimônia a que compareceu o governador Paulo Egydio Martins, Lula assumiu a presidência do sindicato. Mesmo com um índice elevado de sindicalização (50%), muito acima da média nacional (18%), a capacidade de mobilização do operariado de São Bernardo era pífia. Com as pernas bambas, como descreve Elio Gaspari, Lula fez seu primeiro discurso lendo um texto redigido pelo advogado do sindicato, militante da esquerda católica. “De um lado, vemos o homem esmagado pelo Estado, escravizado pela ideologia marxista, tolhido em seus mais comezinhos ideais de liberdade (…) No reverso da medalha, encontramos o homem escravizado pelo poder econômico”, recitou. Os termos inseridos no discurso não faziam parte do seu universo vocabular, nem daquele dos trabalhadores de São Bernardo, lembra Gaspari.

“Pela idade, pela origem e pela inexperiência, parecia um urso de circo, simpático e obediente, mas já comera um dono. (O irmão, que pensara em fazer dele um quadro auxiliar ao PCB). Dois anos depois, comeria seu antecessor, que ficara com a secretaria-geral, certo de que manipularia o “Baiano”. Para a oposição, parecia um capital disponível. Uma parte do governo suspeitava que tivesse dono. Analistas do SNI acreditavam que, projetado do obscurantismo para o vedetismo jornalístico, ele era produto de manipulação de pessoas extras sindicais. “O consulado americano em São Paulo, contudo, percebeu que seu sindicato rejeitara a presença solidária de parlamentares do MDB numa assembleia e que se recusava a participar de manifestações estudantis”, narra Elio Gaspari. Seu mundo era outro. Lula não tinha projeto político, não queria derrubar o governo, muito menos o regime nem falava em criar uma sociedade socialista. Avulso, permitia-se defender posições surpreendentes, sempre contornando as divisões da agenda política.

Reforma institucional? Ele dizia: “O estado de direito para o trabalhador vai muito além de coisas genéricas como liberdade de imprensa e habeas corpus. Eles precisam de autonomia e liberdade sindical”. Arena ou MDB para os governos estaduais? “Estou em um jogo de dois times para os quais não torço. Em festa de nhambu, jacu não entra (…) Existem tão bons políticos no MDB como na Arena. Mas os dois partidos são farinha do mesmo saco”. Em abril de 78, três militantes da Convergência Socialista foram presos em São Bernardo distribuindo panfletos. Um deles foi torturado. Quando pediram a Lula que protestasse, ele fez uma nota solidária mas deixou claro que ninguém fora para a cadeia por atividade sindical. Isso, na versão pública. Noutra, “eles vieram me procurar para fazer um ato de protesto e eu mandei eles tomarem no cu, porque deviam ter procurado a gente antes da confusão, não depois”. Elio diz que pouco depois de sua posse na presidência do sindicato, Lula viajou para Japão e Estados Unidos, numa expedição patrocinada por entidades desses países. Suas propostas eram modernas, radicais diante de um sistema estrutural e financeiramente amarrado ao governo. Pedia um sindicalismo livre e autônomo. Defendia até mesmo as negociações salariais por empresa.

Conforme Elio Gaspari, “desvinculado das correntes políticas, Lula tornou-se uma celebridade, encarnando o antipelego. Para o cônsul americano em São Paulo, ele era a estrela da facção militante do movimento sindical. A abertura do governo do presidente Ernesto Geisel, a ida dos estudantes às ruas no ano anterior e a bandeira da reposição salarial estimularam o renascimento do sindicalismo em vários Estados. Lula era um dos poucos dirigentes dessa nova safra sem outros vínculos partidários. Lula acabou se credenciando como líder sindicalista e essa liderança o ejetou para a seara política-partidária. Mas novamente surpreendeu, fundando em 10 de janeiro de 1980, no Colégio Sion, o Partido dos Trabalhadores, a grande novidade, que chegou com ele à presidência da República mas saiu chamuscado com os escândalos do mensalão e petrolão, com o impeachment de Dilma Rousseff e a própria prisão de Lula, novamente condenado agora, no que o PT denomina de processo de perseguição política.

Nonato Guedes

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