Michel Temer, presidente: dois anos de “governo faz-de-conta”

O presidente Michel Temer gastou aproximadamente uma hora para narrar uma ficção: a de que comanda um governo pródigo e dinâmico na história do Brasil. Na prática, executa um “governo faz-de-conta”, derivado de uma anomalia institucional – o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), flagrada em pedaladas fiscais pelo Tribunal de Contas da União e no cometimento de outras irregularidades – algumas delas decorrentes menos de má-fé do que da ignorância da mandatária em relação aos números oficiais. Apesar da anomalia do impeachment, consubstanciada pelo fato de que o impedimento do mandato de um governante arranha a estabilidade política, registre-se que a democracia manteve-se incólume no país, de tal sorte que a Justiça adquiriu fôlego e coragem para condenar e mandar prender um ex-presidente com indiscutível liderança popular, o petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Quanto ao governo de Michel Temer (MDB), que se arrasta há dois anos, não é nenhuma “Brastemp”, tanto assim que rejeição do presidente alcança níveis estratrosféricos, rondando os 70%, de acordo com o último levantamento do aparente insuspeito instituto Datafolha. Michel Temer, um político provinciano paulista cujo cargo mais relevante na biografia fora o de ter presidido a Câmara Federal, não tem, sequer, cacife para postular mandato pelo voto (o que equivaleria a uma reeleição), muito menos dá sinais de que consegue transferir votos para um suposto herdeiro ou herdeira, tal como se deu da parte de Lula em relação a Dilma Rousseff em 2010 e 2014. Temer teve uma prévia da sua impopularidade ainda recentemente, quando abalou-se a São Paulo para solidarizar-se com familiares de vítimas da queda monumental de um edifício e teve que abreviar sua permanência diante das manifestações de hostilidade com que foi cumulado. Temos um presidente que pouco circula pelo País, certamente pelo receio de apupos ou até de hostilidades mais graves.

Ocorre, também, que o governo não tem muito o que oferecer à população em termos de realizações de impacto. Na chamada prestação de contas que fez a propósito dos dois anos, Michel Temer creditou a si realizações inúmeras em pouco tempo, citando o fim da recessão econômica no país, a queda na taxa de juros, que atingiu o menor nível da história, e do risco Brasil, além de resultados supostamente recordes na balança comercial e melhoria no desempenho das empresas do país na Bolsa de Valores. A impopularidade do governo tem contribuído para que pautas consideradas urgentes e importantes pelo presidente não encontrem ressonância junto a parlamentares que vão se submeter a testes para se reeleger a mandatos eletivos este ano. A base aliada do presidente resiste em comparecer às votações e o presidente está sem força para impor voz de comando no sentido de favorecer a desova de votações de projetos supostamente relevantes.

Entre os projetos que compõem uma extensa lista pendente de aprovação por parte da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, figuram a privatização da Eletrobras e a reoneração da folha de pagamentos. Em paralelo, a situação do governo se agrava pela teimosia do presidente em impor ao Congresso iniciativas que não encontram a mínima receptividade junto à opinião pública. Este é, seguramente, o caso da reforma da Previdência Social – um verdadeiro vespeiro sobre o qual o governo Temer cuidou de se debruçar, mas que não avançou além das intenções por despertar controvérsias e fortes resistências nos segmentos sindicais, representativos da classe trabalhadora. A reforma fiscal foi a única que passou goela abaixo dos parlamentares, mas nem sempre no formato original concebido pelo ocupante da cadeira no Palácio do Planalto e, sim, sujeita a alterações via emendas no Congresso que parecem até desfigurar a concepção-matriz.

Se há uma diferença cujo crédito não pode ser omitido em relação a Temer, diz respeito à austeridade que é colocada em prática. Uma austeridade, até certo ponto, forçada, diante da evasão de divisas públicas, perdidas no ralo da corrupção praticada pelos governos do Partido dos Trabalhadores. Ainda assim, de vez em quando o presidente deixa-se levar por recaídas fisiológicas e acena com compensações aos políticos que, na outra ponta, poderiam desestabilizar o governo economicamente. A sorte do País é que a classe política, temerosa do seu próprio julgamento nas urnas e consequente sobrevivência, recusa-se a passar carta em branco ao presidente Temer, que fica de mãos atadas e prisioneiro da sua vã imaginação de que está, de fato, realizando um grande governo.

Nonato Guedes

 

 

 

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