Mulherio das Letras promete juntar 500 escritoras na Paraíba hoje

Às 17h de hoje, na Fundação Casa de José Américo, em João Pessoa, realiza-se um evento inédito no Brasil – o “Mulherio das Letras”, que pretende congregar cerca de 500 escritoras, editoras e ilustradoras de todo o país. A abertura será feita com uma palestra da pesquisadora Algemira de Macêdo Mendes, tendo como mediadoras as escritoras Lenita Estrela de Sá e Conceição Evaristo, abordando o legado de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense negra, considerada a primeira romancista brasileira ao publicar “Úrsula” em 1859.

O “Mulherio das Letras” foi idealizado pela escritora Maria Valéria Rezende, nascida em São Paulo mas que optou por residir em João Pessoa. Ela é autora consagrada e premiada nacionalmente por seus romances e outras publicações, tendo recebido o troféu Jabuti, um dos mais cobiçados pela intelectualidade brasileira. Maria Valéria explica que a Paraíba tem uma densidade de produção cultural muito grande para um Estado do tamanho do nosso. “Então, não é por acaso que o Mulherio das Letras acontece aqui”, acentuou.

Em 2016, numa conversa entre escritoras na Festa Literária de Paraty, a Flip, foi levantada a questão sobre o fato de que há tão poucas escritoras publicando seus livros. Foi daí que brotou a semente para criação de uma janela que possibilite o escoamento da produção da literatura feita por mulheres – e Maria Valéria sugeriu que um primeiro evento fosse realizado em João Pessoa. Em poucos meses, foram arregimentadas quase seis mil mulheres em um grupo nas redes sociais. “Por incrível que pareça, o Facebook se mostrou uma ferramenta pouco eficiente para organizar um evento desse porte, mas foi como conseguimos nos articular”, explica Maria Valéria.

Há um consenso de que sobretudo as escritoras que estão longe dos grandes centros culturais e econômicos do país não encontram espaço para divulgação da sua produção intelectual. “As escritoras estão publicando em pequenas editoras regionais. Se você olha o catálogo de autores brasileiros de grandes editoras, é uma minoria de mulher. Eles ficam reeditando Clarice Lispector eternamente, Lygia Fagundes Telles eternamente, Rachel de Queiroz eternamente…As novas escritoras encontram muitas dificuldades em se inserir dentro desse mercado”, afirmou Maria Valéria Rezende ao “Correio da Paraíba”. Mesmo sendo uma das exceções, Valéria conta que mesmo assim levou bastante tempo para que livros como Quarenta Dias e o Voo da Guará Vermelha alcançassem reconhecimento.

O Mulherio das Letras vai se estender até domingo em diversos locais de João Pessoa. A escritora Débora Gil Pantaleão aproveitará a oportunidade para lançar sua própria editora, a Escaleras, uma forma de organização das próprias obras e as de outras escritoras eventualmente interessadas em formalizar o processo de publicação. Comenta Maria Valéria Rezende: “O trabalho de Débora é ótimo porque não se trata apenas de publicar o livro pura e simplesmente. Tem muitas editoras que têm o título mas que, na verdade, são quase intermediárias para gráficas. O trabalho de Débora na Escaleras é realmente aconselhamento, a conversa com os escritores, o trabalho de editor-curador”. Diferente de outros eventos, a ideia do Mulherio das Letras é funcionar como um movimento, o que, pelo visto, já está acontecendo. “Ainda nem realizamos o primeiro encontro e já estamos recebendo propostas de realizar o Mulherio em outras cidades. A ideia é essa: circular. Não há proprietárias do movimento”, completa a escritora.

Nonato Guedes

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