Na história republicana, ministérios costumam atrair críticas e ironias

Na história republicana, ministérios costumam atrair críticas e ironias

O presidente Jair Bolsonaro não é o primeiro, na história republicana brasileira, a atrair críticas e até ironias por causa da escolha de ministros ou ministras que, ao invés de ajudar, atrapalham os governos. Num dos períodos de Getúlio Vargas, o homem que mais tempo permaneceu no poder, ora pela força das armas, ora pela água benta das urnas, folclorizou-se o diálogo mantido por ele com um estancieiro gaúcho, amigo seu, a quem indagou sobre o que estava achando do seu governo. “Compadre, pra falar a verdade, o caçador é bom, a cachorrada é que não presta”. A “cachorrada” eram os ministros.

Fernando Collor de Melo colecionou dores de cabeça ao nomear ministros como Rogério Magri, um expoente remanescente do sindicalismo pelego, mais afeito a “pérolas linguísticas” do que a ações administrativas. Coube a Magri inventar neologismos como o de se considerar um ministro “imexível”, durante um fogo cruzado que acabou custando-lhe a cadeira na Esplanada dos Ministérios em Brasília. O caso mais complicado da breve gestão Collor – ele foi apeado do cargo mediante impeachment em 92 – deu-se com a revelação de que o ministro da Justiça, Bernardo Cabral, um homem casado, estava namorando a ministra Zélia Cardoso de Melo, apelidada de “czarina” da economia por ter acumulado mais poderes do que a princesa Isabel nos tempos do Império. Ao ouvir, numa acareação com o casal, a confirmação dos atos explícitos de amor e paixão, Collor esbravejou que tudo aquilo constituía “nitroglicerina pura”. A imprensa havia fotografado os dois “pombinhos” dançando, de rosto colado, o “Bésame Mucho”, numa noitada em Brasília. Acabaram caindo em desgraça.

No segundo governo de Getúlio Vargas em 1951, Carlos Lacerda, jornalista e político da UDN, conhecido pela língua afiada, foi implacável ao escrever um artigo ridicularizando ministros nomeados. Sobre o coronel Nero Moura, nomeado ministro da Aeronáutica, foi enfático: “Sua grande credencial é a de ter sido assíduo piloto do Sr. Vargas e bravo comandante da frota aérea do aventureiro Hugo Borghi”. Lacerda, a seguir, passou a demolir os ministros civis do ministério. “O sr. João Neves da Fronteira, capaz de não deslustrar o Itamaraty, não traz novidades. Já foi ministro e nada acrescentou à sua personalidade nem à política exterior do Brasil, pois ali não pôde ou não quis notabilizar-se (…) No Trabalho, o sr. Danton Coelho. Dele não se conhecem outros feitos senão os de uma extrema capacidade de voar de um lado para o outro, o que é importante para os pombos, mas não tão importante para um ministro”.

E concluía Carlos Lacerda: “Falta ao ministério um conjunto, relevo político e envergadura. O sr, Vargas serve ao país um ministério ralo e requentado. Falou-se muito em um governo de capacidades, de técnicos, de jovens, de revelações. Mas o que veio não passa do trivial de pensão familiar”. Num dos governos de Fernando Henrique Cardoso, em fase mais recente da crônica política brasileira, houve um ministro que caiu graças a uma inconfidência captada por telespectadores via antena parabólica. Rubens Ricúpero, das Relações Exteriores, até então encarado como um homem polido, confessou, numa conversa “em off” com Carlos Monfort, no intervalo de uma entrevista ao vivo na TV Globo em Brasília: “O que é bom para o governo, a gente alardeia; o que é ruim, a gente esconde”. Fez um estrago tão grande que não restou a FHC outra saída senão expelir, confrangido, o ministro Ricúpero da sua equipe.

Nonato Guedes

1 Comentário

  1. José disse:

    Ricupero era ministro da Fazenda de Itamar Franco quando ocorreu a inconfidência.

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