Na terceira chance de concorrer ao Planalto, Marina ainda é uma incógnita

Quando se apresentou no cenário político brasileiro, a ambientalista Marina Silva foi saudada como auspiciosa novidade, até por investir na bandeira da ecologia, que ainda não havia despertado corações e mentes nos outros partidos políticos, tradicionais e aferrados ao discurso da demagogia e da promessa vã. A atual conjuntura nacional assinala o ressurgimento de Marina, depois de ter sido derrotada em dois pleitos na corrida presidencial. Ela ganha força como oponente de Jair Bolsonaro e se projeta como uma possível alternativa de centro, abocanhando nacos à esquerda, no vácuo deixado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas Marina ainda é uma incógnita. Faltam-lhe alianças partidárias e estrutura para sedimentar a candidatura pela Rede, que este ano tem 10 milhões de reais do fundo eleitoral para todas as candidaturas do partido.

O cientista político Fernando Schuller, do Insper, em depoimento à Veja, acredita que é justamente de agora em diante, quando começa a campanha profissional ou propriamente dita, que as fraquezas de Marina ficam mais evidentes, bem como contradições no discurso que profere. Se decidisse seguir sem o apoio de outras legendas, Marina hoje teria palanque insignificante nas capitais do país – miseráveis dez segundos diários de tempo de TV. Nos oito anos que separam a primeira tentativa da ex-senadora e ex-ministra ao Planalto, da atual, minguaram suas conexões partidárias. Ao mesmo tempo em que se distanciou do PT e dos partidos de esquerda, por apoiar a Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff e a candidatura de Aécio Neves em 2014, ela não se aproximou nem do centro e nem da direita. Rompida com o Partido Verde, legenda a que foi filiada até 2011, também despertou antipatia em setores do PSB depois de, ao fundar a Rede, apoiar candidaturas que concorriam contra a sigla que a acolheu em 2014. Atitudes assim ajudaram a fomentar a percepção de que “é difícil fazer acordo com Marina”.

A “Veja” observa que a imagem de inflexibilidade, porém, pode ter apelo para a parte do eleitorado que, exaurida pelas denúncias de corrupção, nutre um sentimento de repulsa à política. De outro lado, a rigidez de Marina a fragiliza em relação a candidatos mais experimentados na arte de costurar alianças. Oapoio do PSB, partido que ela ainda deseja atrair para o seu estuário, está descartado. O presidente nacional socialista, Carlos Siqueira, justifica que a Rede rompeu de forma unilateral com três governadores do PSB. Tornou-se oposição ao PSB no Distrito Federal, Paraíba e Pernambuco. Por isso, uma aliança não passa de um sonho, previne Siqueira. O PSB também é objeto da cobiça de Ciro Gomes, cujo partido, o PDT, dispõe de muito mais palanques para oferecer a potenciais aliados.

A interlocutores de sua confiança, Marina Silva tem dito que se permanecer sozinha está preparada para realizar uma campanha franciscana à presidência da República. Sua estratégia, nesse caso, consistiria em utilizar o tempo de TV praticamente só para divulgar o endereço do seu site. Como exemplo de estratégia, Marina menciona o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, do PHS. Em 2016, ele lançou mão dos seus exíguos vinte segundos no ar para afirmar que não se venderia a nenhum partido em troca de minutos de TV e para convidar eleitores a conhecer suas propostas pela internet. Ganhou no segundo turno, com 53% dos votos. Marina Silva é mais forte, de conformidade com o Datafolha, junto a eleitores com renda de até dois salários mínimos, originários do Nordeste. Trata-se de um público mais suscetível a campanhas de TV do que às de internet. E, segundo pesquisa Datafolha de novembro de 2017, os eleitores de Marina seriam menos engajados no compartilhamento de conteúdo sobre a pré-candidata que os eleitores de Bolsonaro.

Seja como for, Marina, que já ajudou a empurrar uma eleição presidencial para o segundo turno, embora nele não estivesse presente, enclausurou-se depois das duas derrotas, lidera um partido diminuto e é uma ilha em termos de alianças. A revista “Veja” arremata, sobre a presidenciável: “O fato de estar em segundo lugar nas pesquisas mostra que um número razoável de eleitores, se não a considera a fada madrinha capaz de consertar o Brasil do atual desmonte, pelo menos acredita que ela tem o condão de afastar assombrações”.

Nonato Guedes

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