O protagonismo feminino na sociedade brasileira ainda é polêmico

O protagonismo feminino na sociedade brasileira ainda é polêmico

As celebrações em homenagem à Mulher ocasionam inevitáveis reflexões e apreciações sobre o chamado protagonismo feminino na sociedade brasileira. O pleito de 2010, que consagrou Dilma Rousseff como a primeira mulher eleita à presidência da República, foi considerado por especialistas em análises como o mais feminino da história. Nunca tantas mulheres se candidataram em 2010 – de quase vinte mil candidaturas, quatro mil foram enfeixadas por elas. Uma entrou definitivamente para a história do Brasil – Dilma. Que tomou posse manifestando a crença de que serviria de exemplo para que outras expoentes trilhassem o seu caminho.

Um ponto fora da curva, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, produzido em meio a articulações políticas de bastidores no Congresso, por parte de adversários dela e do PT, fez arrefecer o entusiasmo de nova conquista da suprema magistratura da Nação. Para usar uma linguagem futebolística, as mulheres continuam dando tudo de si para se entronizar no poder nas inúmeras esferas. Esse protagonismo, todavia, é cambiante ou oscilante, o que fermenta a discussão, agita e incendeia os debates em todos e quaisquer fóruns. Um pomo de discórdia está relacionado à chamada lei de cotas para registro de candidaturas femininas a postos eletivos. Cúpulas partidárias, ainda controladas por políticos machistas, dificultam o cumprimento de um direito, não de um favor. As mulheres praticamente forçam a barra para assegurar espaços.

Ultimamente, a luta por garantia de vagas para as mulheres na política tornou-se esmaecida após o escândalo das candidatas-laranjas a eleições proporcionais em vários Estados, fazendo jus a recursos do Fundo Partidário, sem que tivessem sido avaliadas de forma criteriosa as suas possibilidades de vitória. O resultado é que inúmeras postulantes constituíram verdadeiros fracassos nas urnas, em nada contribuindo para o fortalecimento das agremiações e muito menos para o encaminhamento das pautas associadas à pauta feminista – ou feminina. Claro que o fenômeno não foi generalizado. Há exemplos de mulheres que furaram o bloqueio das ditaduras partidárias e voaram alto, como a ex-deputada estadual paraibana Daniella Ribeiro, eleita primeira senadora da história do Estado, pelo PP. E já líder da bancada, majoritariamente machista, na Casa.

Ainda em 2010, as mulheres comemoraram um feito: elas foram reconhecidas como a maioria do eleitorado. O pleito registrou 70 milhões de mulheres votantes, cinco milhões a mais do que os homens. Decididamente haviam ficado para trás as restrições de quase 90 anos atrás ao direito devoto por parte das mulheres, submetidas ao regime patriarcal, machista, dominador. Tem sido recorrente, inobstante avanços pontuais ou crescentes, o argumento de que no Brasil a política é tratada como um assunto de homem. O único país da América do Sul com um índice de participação feminina no Congresso menor do que o brasileiro, até há poucos anos, era a Colômbia. Dados do IBGE constataram que desde 1986 a bancada feminina na Câmara aumenta numa média de quatro deputadas por eleição. A continuar nesse ritmo, ela só se equipararia à masculina em duzentos anos. Foi essa comprovação que levou o Congresso aprovar a lei da cota de vagas para as mulheres. Mas como observou a cientista política Marlise Matos, da Universidade Federal de Minas Gerais, os partidos nunca ofereceram condições de competitividade às mulheres. “Elas querem participar do processo político, mas precisam de espaço”, sintetizou.

Uma outra questão, que resvala na polêmica sobre gêneros e posturas, é a revelação de que a maioria das mulheres que conseguem ganhar preeminência nas urnas acaba por adotar discursos masculinos, às vezes contrariando a expectativa do eleitorado feminino. Numa das eleições presidenciais assinaladas no Brasil, ironicamente, foi o único homem entre os três candidatos mais competitivos na disputa pela sucessão de Lula, o tucano José Serra, quem levou à campanha temas sensíveis às mulheres como creches, câncer de mama, entre outros. Isto levou o cientista político Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília, a obtemperar: “Às mulheres é dado pouco espaço na política e, por isso, é exigido das que conseguem mais destaque um pensamento mais alinhado ao dos homens. Entre as políticas brasileiras mais bem sucedidas, nenhuma é feminista”. Tema para reflexão!

Nonato Guedes

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