“O PT deu no que deu”: o enredo de uma metamoforse

Colunista e editora do jornal “Correio da Paraíba”, Sony Lacerda abre espaço hoje para um desabafo de José Elenildo Queiroz, advogado, primeiro prefeito eleito pelo PT na Paraíba, no ano 2000, na cidade de Teixeira. Segundo ele, depois que assumiu o poder, o PT esqueceu os militantes que levantaram a bandeira das mudanças, assim como Elenildo, e enveredou por um caminho completamente equivocado desde a primeira vitória de Lula para presidente em 2002. “Deu no que deu”, constata, desolado.

Elenildo administrou Teixeira entre 2001 e 2004. Nesse ínterim, acusaram-no de praticar irregularidades com o dinheiro público e o resultado é que terminou a gestão desgastado. Pior: por conta das acusações, passou um mês preso na cidade de Patos em 2005. Na Câmara Municipal de Teixeira, uma CPI acusou Elenildo de haver desviado recursos da área da Saúde em 2004, último ano do seu mandato, e sugeriu a sua prisão. O ex-petista conseguiu provar que sua assinatura havia sido falsificada e utilizada para desvios por um ex-secretário. Na avaliação sobre o PT dos escândalos nacionais de hoje, o pioneiro prefeito paraibano fala de desvirtuamento da legenda, onde permaneceu 19 anos, ao se aliar a partidos tradicionais.

“Os partidos aos quais o PT se juntou contaminaram completamente a legenda, que passou a usar o sistema de cooptação de apoios políticos para assegurar a governabilidade das gestões que se sucederam (as de Lula e de Dilma Rousseff) com um projeto que não era seu”, avaliou, ainda, Elenildo Queiroz, nas declarações a Sony Lacerda. Ele contou que ao final do mandato fez um relatório da gestão e pediu para apresentá-lo ao PT, narrando como encontrou a prefeitura e como a devolveu. Nunca lhe deram atenção nem espaço para que ele apresentasse ou tentasse esclarecer qualquer fato ocorrido quando prefeito. A conclusão de Elenildo, professor aposentado da UFCG e doutor em irrigação, é a de que o partido inchou e acolheu muita gente que não tinha ideologia nem afinidade com suas bandeiras. “O partido foi contaminado, esta é que é a verdade”.

A rigor, o depoimento de Elenildo não é original. Ainda quando eu trabalhava na CBN no Sistema Correio de Comunicação, num dos aniversários do PT, entrevistei fundadores da legenda no Estado – e já então os depoimentos eram de desencanto com os rumos tomados pela legenda que o ex-presidente Lula idealizou ao som de charangas no ABC paulista onde os metalúrgicos desafiavam os governos, inclusive militares, em greves que entraram para a história. De lá para cá, as coisas foram piorando. O PT virou o partido dos escândalos, do mensalão, do petrolão, das falcatruas, das maracutaias, de tudo que atribuía de ruim às chamadas legendas tradicionais. É uma legenda irreconhecível, que abriga delatores, desertores e desiludidos. Lula conseguiu a proeza, com sua leniência de comando, de destruir aquilo que ele mesmo edificara. É um caso raro em política, dirão. Mas casos raros acontecem em qualquer atividade.

Hoje em Curitiba, o ex-presidente Lula volta a sentar na cadeira dos réus, prestando depoimento pela segunda vez ao juiz Sergio Moro sobre irregularidades que praticou enquanto era o manda-chuva do partido. Lula anda baqueado porque seu ex-ministro Antonio Palocci deu com a língua nos dentes e apontou casos flagrantes de maracutaias. O PT saiu com facilidade das páginas políticas para as páginas policiais. A primeira mulher eleita presidente pela legenda sofreu um processo de impeachment, vários ex-presidentes, ex-tesoureiros do partido e ex-ministros de governos petistas estão encarcerados em diferentes presídios, acusados de algum tipo de desvio de conduta. O partido enfrenta sangria por todos os lados e suas cores são defendidas apenas por um punhado de militantes que não querem acreditar que o sonho acabou.

Infelizmente para esses petistas empedernidos, o sonho acabou mesmo. Infelizmente para o Brasil malogrou a tentativa de fazer vingar um partido de trabalhadores, escoimado de vícios nas suas entranhas. O PT cometeu pecados gravíssimos. Deu no que deu, como diz Elenildo, na mais perfeita tradução da metamorfose que acometeu a legenda fundada pelo ex-metalúrgico e ex-retirante nordestino.

Por Nonato Guedes

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