Paraíba teve trinca de “governadores biônicos” no regime militar

Paraíba teve trinca de “governadores biônicos” no regime militar

Invenção do regime militar para impedir a ascensão de opositores ao poder, a figura do “político biônico”, denominação dada a personalidades sem votos, produziu três governadores na Paraíba – Ernani Sátyro, Ivan Bichara Sobreira e Tarcísio Burity e um senador, Milton Bezerra Cabral, que também foi escolhido governador de forma indireta, quando as eleições diretas já haviam sido restauradas, para concluir o mandato de Wilson Braga, que renunciara para disputar o Senado. Os governadores eram “sorteados” pelo colégio de generais para governar Estados ou ocupar cadeiras parlamentares em Brasília sem passar pelo crivo popular. Da “trinca” paraibana, dois já haviam sido testados nas urnas, com êxito, em disputas ao legislativo – Ernani Sátyro e Ivan Bichara. Burity, depois do estágio como “biônico”, consagrou-se nas urnas como deputado federal eleito em 1982 e voltou ao governo nos braços do povo em 86, derrotando Marcondes Gadelha. Milton fora eleito senador em 1970 e elegeu-se, também, deputado federal.

O interesse do regime militar era o de garantir, de forma compulsória, o controle do poder político-institucional nas esferas de representação do Executivo e do Legislativo. O ex-presidente Ernesto Geisel, ao editar o pacote de abril de 1977, instituindo os senadores biônicos, chegou a justificar que estava premiando “notáveis sem voto, mas de cuja sapiência e colaboração o país não pode prescindir”. Na prática, reeditava-se a filosofia das “capitanias hereditárias”, predominante em períodos mais remotos, de puro anacronismo político. Pelo menos uma das escolhas ao governo do Estado, de forma indireta, foi legitimada por causa de uma disputa em convenção: a que ungiu Tarcísio Burity em 1978. Ele foi desafiado por Antônio Mariz, então também filiado à Arena, para medir forças em convenção realizada na Assembleia Legislativa, da qual só participavam com direito a voto delegados escolhidos nos municípios e fiéis ao governo de plantão. Burity foi vitorioso e surpreendeu no primeiro governo, vindo a desgastar-se por vários fatores no segundo, empalmado a partir de 87. Milton ascendeu ao governo via Assembleia Legislativa para concluir o mandato de Wilson Braga, que renunciara para disputar o Senado, juntamente com o empresário José Carlos da Silva Júnior, então vice, que se afastou para disputar o governo e acabou renunciando à candidatura por se sentir pressionado a ser o trem-pagador da campanha. Milton fez um governo desastroso, refletido, entre outras coisas, no atraso de pagamentos ao funcionalismo e a fornecedores do Estado.

O “ciclo da bionicidade” no Executivo paraibano coincidiu com o fim do governo João Agripino, o último governador eleito pelo voto direto, em 1965, derrotando Ruy Carneiro nas urnas. Em 82, com o regime militar vivendo seus estertores, o país foi reapresentado às urnas e, na Paraíba, Wilson Braga derrotou Antônio Mariz, já no PMDB, por 151 mil votos de maioria. Em 86, Burity migrou para o PMDB e se consagrou novamente governador, com diferença de quase 300 mil votos sobre Marcondes Gadelha e em 1990 Ronaldo Cunha Lima, pelo PMDB, derrotou Wilson Braga no segundo turno, contando com o reforço do ex-deputado federal João Agripino Neto, que disputara pelo PFL e alcançou um desempenho expressivo, atraindo, principalmente, votos de eleitores da chamada classe média.

Historiadores políticos, a nível nacional, avaliam que “casuísmos” como o que instituiu o governador “biônico” dificilmente voltarão a prosperar na conjuntura nacional – embora o Brasil tenha fama de cultivar símbolos recorrentes. Esses analistas fiam-se na versão de que a História não se repete senão como farsa, uma das máximas preferidas, da lavra de Marx, que deu estofo teórico ao comunismo e derivados como o socialismo. Em outros Estados, governadores “biônicos” constituíram verdadeiros fiascos, envergonhando a própria cúpula militar em Brasília e originando cassações de mandato por irregularidades ou improbidade administrativa. Em 1965, com a auto-denominada “revolução” investida de poderes excepcionais, ainda se consentiu que alguns governadores eleitos pelo voto tomassem posse (na época, havia incoincidência de eleições estaduais). Foi assim que se absorveu a vitória de João Agripino contra Ruy na Paraíba por margem estreita, da mesma forma como Negrão de Lima foi admitido como governador eleito da antiga Guanabara. Depois deles, inaugurou-se o ciclo “biônico”, que é página virada.

Nonato Guedes

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