Santander recua e censura exposição de arte após pressão do MBL

O Movimento Brasil Livre, de infausto papel no processo de impeachment da presidente Dilma Roussef, parece defender a liberdade apenas na retórica e na sua nomenclatura. Tanto assim, que partiu do MBL a reação mais agressiva contra a exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na América Latina”, promovida pelo Santander Cultural, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Os protestos contra o teor da exposição fizeram com que a instituição encerrasse a mostra um mês antes do imprevisto. A justificativa dos que protestaram contra é que a mostra continha imagens de pedofilia, zoofilia e, pasmem!, ideologia de gênero.

O principal questionamento sobre o assunto nas redes sociais foi: até que ponto deve haver censura a obras de artes para agradar segmentos sociais e/ou religiosos da sociedade? “Não compactuamos com esse tipo de postura e discordamos que dinheiro público esteja envolvido na divulgação de pedofilia ou outras “filias”. Não acredito que (a mostra) seja um tipo de arte. Para começar, não entendo que isso seja arte, muito menos que uma criança tenha acesso a esse tipo de coisa”, afirmou Paul Cassol, coordenadora do Movimento Brasil Livre.

O escritor Matheus Arcaro protestou: “Julgar a arte por elementos extra-estéticos é um problema grave. Ainda mais quando estes critérios são pautados por expressões bizarras como “moral”, “bons costumes” e “família tradicional”. Tais julgamentos não são raros na história da humanidade. Cito 3 para não me fazer cansativo: a lista de livros proibidos na Idade Média, a arte degenerada no Nazismo e a censura no período militar brasileiro.” O secretário de Cultura da Paraíba, poeta Lau Siqueira, acrescentou: “Sinceramente, o Santander merece todo o repúdio por ceder às pressões. Assim começamos a conviver com a censura.”

Os protestos não pararam por ai. O jornalista Wagner Lima analisou: “Sentimentos de ódio e intolerância crescem sempre ao lado de crises econômicas no mundo todo, mas no Brasil tem dois fatores convergentes a isso: o analfabetismo funcional gritante e o crescimento de movimentos cristãos fanáticos tanto pelas neopentecostais evangélicas quanto pelo segmento católico”.

De Moscou, onde passa temporada, o jornalista e poeta Astier Basílio também entrou no tema. Em texto intitulado “OS fanáticos se aparecem”, Astier informa que uma obra de arte, que sequer foi vista, anda “ofendendo” sensibilidades na Rússia. “Trata-se do filme “Mathilde”, produção que conta a história de amor entre o tzar Nicolau II e uma bailarina polonesa. O imbróglio é que em 2000 a Igreja Ortodoxa Russa canonizou o ultimo monarca dos Romanov”, explicou. E completou comparando à censura a obras de arte na Rússia e no Brasil: “Fanáticos se parecem. Não importa se calhem de parecer diferentes à primeira vista. Não importa se creiam na santidade de um monarca adúltero ou se, suprema jaboticaba brasileira, sejam liberais que militem contra a liberdade como foi o caso do MBL, os fanáticos sempre se parecem”.

Com curadoria de Gaudêncio Fidelis, a Queermuseu é formada por mais de 270 obras (oriundas de coleções públicas e privadas) que percorrem o período histórico de meados do século XX até os dias de hoje. A iniciativa explora a diversidade de expressão de gênero e a diferença na arte e na cultura. A exposição foi aberta na metade de agosto, com entrada franca, e seguiria até 8 de outubro. A mostra foi viabilizada pela captação de R$ 800 mil por meio da Lei Rouanet. Em protesto contra o encerramento da mostra, o Nuances – Grupo Pela Livre Expressão Sexual organiza nesta terça-feira (12) à tarde, em frente ao Santander Cultural, o Ato pela Liberdade de Expressão Artística e Contra a LGBTTFobia, “em defesa da liberdade de expressão artística e das liberdades democráticas”. A mostra tem obras assinadas por 85 artistas, entre eles Adriana Varejão, Cândido Potinari, Ligia Clark, Yuri Firmesa e Leonilson.

Linaldo Guedes

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