Três décadas sem Asfora, o vice que não assumiu; mistério continua

Decorridas três décadas da morte do tribuno e ex-vice-governador eleito da Paraíba Raymundo Asfora, persiste o mistério: suicídio ou assassinato? Ele foi encontrado morto no dia seis de março de 1987 em sua casa na granja Uirapuru, nos arredores de Campina Grande, próximo ao açude Bodocongó. Asfora tinha 57 anos de idade e nove dias depois seria empossado como vice-governador do Estado, juntamente com Tarcísio Burity, que fora eleito governador pelo PMDB em campanha memorável travada em 1986, derrotando o então senador Marcondes Gadelha (PFL), apoiado pelo esquema do ex-governador Wilson Leite Braga. Além da comoção natural causada pela morte de Asfora, que encantava plateias com seu verbo fácil e sua oratória candente, o impacto se agravou diante das circunstâncias trágicas que cercaram a sua morte e que até hoje não foram totalmente deslindadas.

No livro “Esplendor & Tragédia”, que traça o perfil do ex-governador Tarcísio de Miranda Burity, o escritor e jornalista Severino Ramos narra que foi inevitável a celeuma que se seguiu quanto à ocorrência de suicídio ou assassinato. A tese de homicídio – disse Ramos – tem prevalecido por conta da posição em que se achava o corpo. Legistas renomados explicaram que a posição do corpo e testes feitos com o revólver supostamente utilizado pela vítima contrariavam provas científicas que demonstravam ser impossível atingir a própria cabeça com tiro descendente e permanecer segurando a arma; colocá-lo à esquerda e se posicionar como se estivesse cochilando”. Esta foi a conclusão a que chegou o perito gaúcho Domingos Torcheto, especializado em balística, ao narrar suas pesquisas sobre o caso Asfora. A tese foi acolhida e sustentada pelo legista paraibano Genival Veloso de França. Cearense de nascimento, campinense de coração e descendente de árabes, Asfora enfrentava problemas de natureza familiar que o levou a se separar da mulher, Gilvanete Vidal de Negreiros, que, antes da formalização do fim do casamento, fez compras nas praças de Campina Grande e Brasília em valores bastante elevados.

Asfora estava deprimido numa conversa que manteve com o seu amigo e colega de mesa de bar Ronaldo Cunha Lima, que foi governador da Paraíba na década de 90. O governador Tarcísio Burity, profundamente chocado com a tragédia, lamentou o desfalque que sofreria na sua segunda administração, mencionando as qualidades de Asfora e o seu espírito público demonstrado nas vezes em que exerceu mandatos de deputado estadual e federal. O rumoroso caso permanece, tanto tempo depois, envolto em denso mistério e fez com que Burity permanecesse no governo até o último dia do mandato, evitando concorrer a cargo eletivo, uma vez que não confiava no presidente da Assembleia Legislativa, João Fernandes da Silva, que passou a sucessor automático do governador na linha de sucessão pela inexistência da figura do vice. Raymundo Asfora destacou-se pelo brilhantismo em sua atuação na Câmara Federal. Quando deputado estadual, foi incansável defensor das lutas das Ligas Camponesas, chegando a pronunciar um discurso que foi qualificado de obra-prima quando do enterro do líder João Pedro Teixeira, assassinado em 62 na região da Várzea da Paraíba por pistoleiros contratados por proprietários rurais que tinham interesses contrariados pela ação de João Pedro e seus companheiros.

Nonato Guedes

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