Um brinde ao “Estadão”, relíquia do jornalismo impresso no país

Um brinde ao “Estadão”, relíquia do jornalismo impresso no país

O jornal “O Estado de São Paulo” completou, ontem, 144 anos de existência. Já figura na história do jornalismo impresso do país como um guardião da liberdade, relíquia da nossa imprensa, que arrostou censura e outras punições por ter desafiado regimes ditatoriais como o de Getúlio Vargas, no Estado Novo, e o dos militares que promoveram a quartelada em 1964. É verdade que a família Mesquita, proprietária do “Estadão” e “Jornal da Tarde” foi ativa conspiradora em 64, a pretexto de defender a democracia. Mas em 68, quando da vigência do Ato Institucional Número Cinco, de nefasta memória, deu-se a ruptura no editorial de Júlio de Mesquita Filho intitulado “Instituições em Frangalhos”. Em agosto de 72, a polícia, armada de metralhadoras, cercou o prédio do jornal na rua Major Quedinho e passou a censurar as edições, alegando que os dois jornais pretendiam publicar matéria “capaz de abalar o regime”.

O “Estadão” notabilizou-se junto aos jornalistas e à própria intelectualidade pelo artifício de que lançou mão para burlar a censura e insinuar aos leitores que estava sendo censurado. O artifício consistia em preencher espaços censurados com inofensivas receitas de bolo ou com poemas do épico Camões. No rol de proibições esdrúxulas instituídas pelos ”gendarmes” da nova ordem, constava a de não se falar em abertura política. Rui Mesquita enviou um telegrama a Alfredo Buzaid, ministro da Justiça, com cópias ao ministro Leitão de Abreu e a líderes da Arena e MDB na Câmara e Senado, invocando sentimento de profunda humilhação e vergonha.

– Senti vergonha, senhor ministro, pelo Brasil degradado à condição de uma republiqueta de banana ou de uma Uganda qualquer, por um governo que acaba de perder a compostura – vergastou Rui Mesquita, indignado. O jornalista denunciava que a chamada revolução abandonara os rumos traçados pelo seu líder maior, o marechal Humberto de Alencar Castello Branco para enveredar pelos rumos de um caudilhismo militar “que já está fora de moda, inclusive, nas repúblicas hispano-americanas”. Os dois jornais estiveram sob censura prévia até janeiro de 1975, quando o “Estadão” ia comemorar seu centenário de existência. Durante esse período o jornal passou a ser disputado nas bancas por causa de sua maior agressividade, divulgando matérias que normalmente não publicaria, segundo afirma o jornalista Paolo Marconi em livro sobre a censura.

Tive o privilégio de compor, por sete anos, com carteira assinada, os quadros da Empresa, na condição de correspondente regional na Paraíba dos jornais “O Estado de S. Paulo” e “Jornal da Tarde”. A rigor, era lotado na Agência Estado, que distribuía matérias para jornais de repercussão no Rio e em outras capitais, como A Tribuna da Imprensa, de Hélio Fernandes. Devo a Carlos Garcia, valoroso jornalista com atuação no Recife, o convite para ser repórter regional do “Estadão”, e tive a honra de substituir a Antônio Barreto Neto, conhecido crítico de cinema na Paraíba e um profissional de excelente caráter e competência. Recebia as pautas por um aparelho de telex que a Embratel instalou na casa dos meus pais em Jaguaribe e era acionado para matérias exclusivas e especiais. Tive a oportunidade de escrever sobre a luta dos indígenas de Baía da Traição pela posse da terra e de entrevistar personalidades como Dom José Maria Pires, Paulo Brossard e o general Antônio Bandeira. Nunca fui censurado nas minhas matérias. O “Estadão” foi, para mim, a universidade de jornalismo que não frequentei, e trabalhei ao lado de notáveis da imprensa como Geneton Moraes Neto, de saudosa memória.

Nonato Guedes

 

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